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Por que é que Deus não curou Charlie Gard?
- 19-07-2024
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Nada na providência divina é em vão
Charlie Gard, o bebé britânico portador de uma doença grave, morreu num hospital de Londres. Embora já fosse esperada, a morte de Charlie deixou todo o mundo triste.
A situação de Charlie chamou a atenção. Diagnosticado com uma doença terminal, o bebé que ainda não tinha um ano de idade, teve a sua vida e a sua morte no centro de uma amarga disputa legal. Enquanto os médicos de Charlie julgavam melhor suspender os tratamentos, os pais dele não concordavam. Eles queriam dar ao filho uma chance de lutar pela vida, mesmo que os tratamentos experimentais apenas melhorassem a sua grave situação. O que aconteceu deixou de ser uma disputa sobre o tratamento de Charlie e tornou-se uma batalha judicial sobre os direitos parentais. Entre o hospital e os pais, quem deveria ter a última palavra ao determinar o que seria melhor para uma criança doente? Em inúmeras audiências, os pais de Charlie, Chris Gard e Connie Yates, perderam quase todas as apelações. Os tribunais negaram os pedidos que eles fizeram para transferir o garoto para outro hospital e buscar tratamento experimental no exterior. Até mesmo a solicitação para levar Charlie para morrer na sua própria casa foi negada. A cada passo, os juízes contestavam os pedidos com base em evidências clínicas. Resultado: Charlie não deixou o hospital no qual foi diagnosticado e os desejos dos médicos finalmente foram cumpridos.
O debate legal sobre o caso Charlie Gard vai continuar como era de esperar.
Mas não é só isso. As questões culturais e religiosas também serão discutidas. Por exemplo: no lado religioso, alguns fiéis podem encontrar na doença e na morte de Charlie um desafio à fé. Embora as fotos do baptismo de Charlie nos consolam como cristãos, podemo-nos perguntar, no entanto, por é que que Deus não actuou radicalmente para salvar a vida do pobre Charlie?
Foram muitas as pessoas que rezaram e pediram orações para ele e para a sua família, milhares no Facebook, resultando numa corrente de oração que se estendeu por todo o mundo.
Tudo em vão? Dias atrás rezávamos pela vida de Charlie; agora pedimos pelo repouso da sua alma. Isto, para alguns, pode suscitar a pergunta: se a oração de centenas de milhares de pessoas em nome de uma criança inocente não é suficiente para fazer Deus agir neste mundo, então o que seria?
Perguntas como esta podem ser inevitáveis, mas não ficam sem respostas. O propósito da oração de intercessão não é mudar a vontade de Deus; o seu objectivo é mudar-nos a nós. Santo Agostinho explicou isto, há séculos, a uma nobre cristã que enfrentava inúmeros desafios. O santo bispo incentivou a mulher sofredora a rezar por uma “vida feliz”, que é quando possuímos tudo o que desejamos, contanto, é claro, que não desejemos nada do que não devemos ter. Por outras palavras: a felicidade consiste em possuir o que Deus nos quer dar. A visão de Agostinho, aqui, é instrutiva. Ao abrirmos os corações para Deus – para nós e para os outros – a nossa oração é purificada, de modo que começamos a desejar mais o que Deus nos quer dar e menos o que nós gostaríamos de ter. Mesmo em tempos de angústia, explicou Agostinho, a oração transforma o nosso sentimento de dor e ansiedade para iniciar a busca do bem maior que Deus nos proporciona através do nosso sofrimento.
Na sua doutrina de oração, São Tomás de Aquino destacou o mesmo ponto. Ele ensinou que rezar pela salvação, por uma graça, por uma conversão e pelo crescimento de uma virtude é alinhar as nossas vontades às de Deus. Consequentemente, Deus não é aquele que muda como resultado da nossa oração; nós é que mudamos. Apesar disso, Tomás de Aquino e Agostinho não acreditavam que nós não deveríamos orar também pelos bens temporais – por um bom trabalho, pela preservação da doença, pela protecção contra os inimigos -, mas ambos consideravam que o nosso desejo por esses bens deveria ser orientado para a felicidade final e eterna que Deus quer para cada um de nós. O desejo de atingirmos o Céu, portanto, representa o fruto da nossa oração: de que a vontade de Deus seja feita, tanto na terra como no Céu. Mesmo que soframos por causa do desemprego, de uma doença difícil ou dos ataques dos nossos inimigos, a nossa vontade de chegarmos ao Céu deve permanecer – e até mesmo crescer.
Quando aplicados à curta vida de Charlie Gard, os ensinamentos cristãos sobre a oração podem ser um desafio. Precisamos de muita fé para entender que a morte do pequeno Charlie, que ocorreu apesar de tanta oração pela sua vida, aponta-nos para algo bom que Deus nos quer dar, algo maior do que o mal que representa a morte de Charlie. Este mistério não nos deve surpreender, é claro. Pensemos na vida e na morte de Jesus. A paixão de Cristo levou-nos a um bem maior do que o mal da execução de Deus-Homem. Assim também se dá com todo o mal que enfrentamos; Deus permite isto apenas por causa de um bem maior. Consequentemente, enquanto pedíamos a vida de Charlie Gard, buscávamos, de facto, não mudar Deus, nem forçar a Sua mão para agir, mas, sim, mudar a nós mesmos. Através da nossa oração, buscamos alcançar o bem maior que Deus vai conceder depois de permitir a doença de Charlie. Agora que a nossa oração mudou e rezamos pelo repouso da sua alma, o trabalho de mudar-nos através da busca do bem maior, que envolve o sofrimento da morte de Charlie, deve intensificar-se.
Talvez esta oração já esteja a dar frutos. Talvez nunca possamos saber nesta vida a natureza exacta do bem maior pelo qual Deus permitiu que Charlie Gard morresse tão jovem. Seja qual for a natureza específica desta graça, o mundo já parece melhor – mais humano, talvez – por ter o Charlie Gard como símbolo dos direitos parentais e de oração pelo ordenamento dos direitos civis. Já podemos ver que, na providência de Deus, nem a morte de Charlie nem as nossas orações pela sua vida, foram em vão.
Senhor, Deus Todo poderoso, concede-lhe o descanso eterno e permite que ele seja iluminado pela luz perpétua. Que ele descanse em paz. Na Tua paz. Amém.
