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Diferença entre depressão e tristeza

 Diferença entre depresão e tristeza

"Precisamos de aprender a ouvir o nosso corpo. Saber como estamos a viver, como estamos a ser afectados. E não fomos educados para isto"

Hoje fala-se muito sobre depressão, mas nem sempre foi assim. O nosso modo de vida – dentro de uma sociedade que vive num ritmo acelerado - cada vez mais exige do ser humano que ele exerça as suas actividades de "corpo e alma".
As consequências de uma vida stressante, na qual os limites do corpo não são respeitados, tornam-se cada vez mais evidentes. Há muitas pessoas cansadas, tristes, desmotivadas, sofrendo com a depressão e tantos outros sinais que alertam o homem sobre um sério problema: é preciso parar e "ouvir" o próprio corpo.
Nem toda a tristeza é depressão. Nem todo o cansaço é preguiça. Há diferenças entre a depressão, tristeza e cansaço. Parece algo óbvio, mas não o é. Para falar sobre estas profundas diferenças, fica aqui uma entrevista com a psicóloga Maria Inez Romeiro, profissional há mais de 35 anos.
Hoje fala-se muito em depressão. Sempre foi assim? O que mudou na nossa vida?
- Na verdade, mudou muita coisa. Inclusive estas mudanças acabaram por favorecer o aparecimento da depressão. A gente não compreende isto, porque entende a depressão como um estado emocional, um estado psicológico de alguém, como sendo algo que ocorre dentro da pessoa e nada tem a ver com o que acontece no mundo ao seu redor. No entanto, quando vemos a depressão não somente como um mero problema emocional, mas como uma perturbação da existência, ou seja, uma perturbação no modo de existir, compreende-se que esta enfermidade tem muito a ver com o modo como cada um vive, busca algo e assim por diante. Actualmente, vê-se o ser humano bem motivado para obter coisas, vencer certos desafios e, na maioria das vezes, o homem esquece-se do mais importante: cuidar de si. E isto não num sentido meramente material, mas num sentido mais amplo, que é o de cuidar da sua própria existência, do sentido que ela traz.
Em que consiste a depressão?
- A depressão é um transtorno do que chamamos humor. O humor, na verdade, quer dizer a afectividade, os sentimentos. Então, quando se diz que esta doença é um transtorno de humor, estamos a dizer que ela é uma perturbação no modo de ser de um indivíduo no mundo, no modo como ele se sente, como o mundo o afecta e também como ele afecta o mundo. Na depressão a pessoa está como que numa estrada. Ela está a conduzir o seu veículo normalmente até que se depara com uma “baixada” no trajecto. A esta baixada chamamos de depressão, ou seja, estar na depressão é estar "menos". Menos daquilo que poderíamos estar ou viver. O indivíduo com depressão está abaixo em termos de alegria, de disponibilidade para a vida e assim por diante. Basicamente, a depressão é uma perturbação do estado de humor da alegria, da tristeza, do amor, de todos os nossos estados emocionais e afectivos.
Qual a diferença entre tristeza e depressão?
- A tristeza é uma reacção natural do ser humano diante de perdas, decepções, entre outros. Existe sempre ligado à tristeza algum motivo. Ninguém fica triste sem um motivo. E a tristeza faz parte da nossa vida. Não há como viver sem nunca conhecer este sentimento, que é uma reacção natural. A depressão não. Eu costumo brincar dizendo que (embora seja um assunto muito doloroso) "a depressão é uma tristeza que perdeu o endereço". Por quê? Porque a tristeza sempre tem um motivo, um "endereço", como a perda de um ente querido ou a decepção com alguém. Mas a depressão não tem um motivo. Se perguntas a uma pessoa deprimida o que a entristece, dificilmente ela saberá responder exactamente o que tem e do que sente falta. A pessoa não sabe e simplesmente não tem vontade para nada. Em casos graves, a pessoa com depressão nem sequer se levanta da cama para se alimentar, tomar banho, como se nada que existisse na sua vida valesse mais a pena. Entendemos, com isto, que a depressão é um processo bem mais complexo do que o existente com a tristeza, no qual se foram acumulando tristezas na vida até chegar ao ponto em que a pessoa não sabe o que a entristece. Ela somente sabe que perdeu a esperança, a vontade e a motivação.
Como podemos diferenciar entre uma pessoa que sofre de depressão e uma pessoa preguiçosa?
- Chega a ser subtil a diferença entre a depressão e a preguiça. A preguiça sempre me impressionou. Quando eu ouvia alguém dizer: "Fulano é preguiçoso!", eu parava para pensar sobre isto. Eu não podia entender que alguém simplesmente não pudesse fazer as coisas por não querer fazê-las. Durante todos estes anos eu tenho pensado sobre a relação entre preguiça, depressão e cansaço. Se vês uma pessoa sem preguiça e sem depressão o que vês? Uma pessoa que cuida da sua vida e dos seus familiares, realizando inúmeras tarefas, ou seja, uma pessoa activa. A actividade desgasta. E nós podemos ir gastando as nossas energias, no nosso dia-a-dia, acima dos nossos limites. Um exemplo é quando resolvemos trabalhar de "corpo e alma". Acontece nessa hora um fenómeno estranho: a pessoa que está a executar uma tarefa de "corpo e alma" não percebe o seu corpo. O corpo está "presente", mas de um modo "ausente". Então alguém pode esgotar-se por estar de "corpo e alma" numa determinada tarefa e não se dar conta da fome, da sede e do cansaço. A pessoa pode chegar a um quadro de esgotamento com uma série de sintomas, como falta de memória, desmaios e assim por diante. Isto é cansaço. E ele difere da depressão e da preguiça.
Na preguiça o que vês? Em vez da pessoa estar envolvida de "corpo e alma" numa determinada actividade, a pessoa preguiçosa "ouve" apenas o corpo. E as sensações do corpo dirigem a existência dela. Por que é que muitas doenças ocorrem de madrugada? Por que é que as dores são piores de madrugada? Porque, nesse período, o mundo está silencioso. Tudo silenciou. E, no meio de todo este silêncio, conseguimos escutar com muita clareza o nosso corpo. Às vezes, a pessoa termina alguma actividade e diz: "Nossa! Que fome!" e antes ela não percebia isto. Mas, na verdade, a pessoa não estava a ouvir o seu corpo.
Precisamos de aprender a ouvi-lo [o nosso corpo]. Saber como estamos a viver, como estamos a ser afectados. No entanto, não fomos educados para isto. Estamos sempre focados em algo exterior, sem nos dar conta de como estamos a viver. E, assim, vamos vivendo perigosamente por não dar ouvidos ao próprio cansaço.
A pessoa preguiçosa é uma pessoa sem motivação – e isto ainda não é depressão – e tudo o que está ao seu redor pode ser deixado para depois. O corpo da pessoa preguiçosa e o seu bem-estar físico é o mais importante. E o corpo é que "dita mais as regras" para ela. É alguém com uma aversão maior às actividades.
Ter uma vida de oração contribui de que forma para a melhoria da pessoa que sofre seja de depressão, cansaço ou tristeza?
- A vida de oração é benéfica em todos os sentidos, pois ela traz uma profunda ligação com Alguém que nos ama. E se tu já partes deste princípio, fazes a tua vida valer a pena. Não há necessidade de tantos falsos atractivos. Se tu sempre tens em mente que este Alguém te ama, suportas aquela decepção, aquela ofensa sofrida, porque tens fé, tens confiança em Alguém que te ama já "de saída", sem exigir nada [em troca]. Quantos de nós pensamos que, para alguém ser amado e ser respeitado, precisa de ter o melhor carro, ganhar muito... E quanto se sofre com tudo isso! Quando, na verdade, a pessoa se sente amada já "de saída" – Santo Deus! – é uma maravilha! Poder confiar no amor já "de saída" para a existência. Agora, imagina quando não se acredita [em Deus]. Como a vida se torna dura e as coisas têm que fazer sentido de alguma forma, do contrário, a vida fica muito vazia, sem saber por que nascemos e morremos. Portanto, o contacto com Deus, a ligação profunda com Ele – para quem tem – é um privilégio que deve ser guardado com muito cuidado como um tesouro.

 

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