Com a celebração litúrgica de hoje, quarta-feira de Cinzas, a Igreja inicia a caminhada quaresmal, tempo especial de graça, de conversão pessoal e comunitária, como preparação para a solene e frutuosa celebração da Páscoa, acontecimento central da nossa fé cristã.
A quaresma é o tempo favorável da escuta da Palavra e do silêncio, da oração e da partilha, que nos conduzem à fonte inesgotável da Vida, na comunhão com Deus e com os outros. O Deus da Vida, sempre presente e atento, precede-nos no encontro com Ele: “Por todos os lados me envolveis e sobre mim pondes a vossa mão”(Sl 138).
A simbologia das cinzas, que marca o sentido deste dia, tem um caráter penitencial, de apelo ao arrependimento e à vida nova de baptizados. À luz da Palavra de Deus, compreender-se-á o significado profundo deste gesto litúrgico: a fragilidade e finitude da vida humana, a urgência da conversão e o preparar-se cada um, espiritualmente, para o encontro pascal com Cristo Ressuscitado.
Neste percurso espiritual somos iluminados pela Palavra, que dá novo vigor à nossa vivência quaresmal. A Palavra divina introduz cada um de nós no diálogo com o Senhor: o Deus que fala, ensina-nos como podemos falar com Ele” (Verbum Domini, 24).
Como forte apelo à conversão, dirigido a todo o Povo de Deus, sem excluir ninguém, é significativo o convite do Profeta Joel a uma verdadeira mudança de vida e de mentalidade. “Convertei-vos a Mim de todo o coração... rasgai os vossos corações e não as vossas vestes” (2,12-13), escreve o Profeta em nome de Deus. É que a verdadeira conversão toca o mais íntimo de nós próprios, implica “rasgar” o coração, isto é, romper com o mal e o pecado, deixar-se envolver pelo abraço carinhoso do Pai, sempre pronto a amar e a perdoar: “O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo” (v.18).
S. Paulo lembra que o amor eterno de Deus salvador manifestou-se, de forma extraordinária, em Cristo Jesus, que, solidário com a humanidade pecadora, assumiu a condição humana e entregou-Se, sem reservas, pela vida do mundo: “A Cristo que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por nosso amor” (2Cor 5,21). E S. Paulo pede aos cristãos da comunidade de Corinto que “pelo amor de Cristo se reconciliem com Deus” (2Cor 5,20). Assim, a salvação acontece também “agora”, neste tempo favorável, que Deus continua a oferecer à Humanidade.
S. Mateus, lembra-nos que Jesus introduz-nos no dinamismo da autêntica conversão, agradável a Deus. Esta não consiste num conjunto de práticas exteriores, de aparente religiosidade e apenas para dar nas vistas: Jesus não condena as sãs tradições religiosas da esmola, oração e jejum, mas pede que sejam praticadas com pureza de intenção.
