O Evangelho de São Lucas, capítulo 4, introduz-nos no tempo da Quaresma. Se o Advento nos preparou para a vinda do Senhor na encarnação, agora a Quaresma prepara-nos para a Páscoa, para a ressurreição. E aqui está uma verdade impressionante da nossa fé: a nossa carne irá ressuscitar. Como disse Job: “Eu mesmo verei o Senhor com os meus próprios olhos.” Não outro, mas eu mesmo. Não se trata de reencarnação, mas da ressurreição deste corpo, destes olhos, desta carne. Mesmo que o corpo se desfaça na terra, Deus conhece cada elemento que o compôs. Ele sabe quais foram os elementos orgânicos que formaram os nossos músculos, ossos e nervos. Este corpo foi templo do Espírito Santo. Recebeu a Eucaristia, rezou, adorou, sofreu, serviu. Por isso, mesmo misturados com a terra, estes elementos pertencem a um templo santo. E no dia da vinda gloriosa do Senhor, ao toque da trombeta, tudo será reunido. O nosso corpo será reconstituído e ressuscitará glorioso, semelhante ao corpo de Cristo, sem defeitos, sem limitações. Os que estiverem vivos na vinda do Senhor não precisarão de morrer; serão transformados num abrir e fechar de olhos. Assim ensinam São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (capítulo 15) e na Carta aos Tessalonicenses (capítulo 4). Os mortos ressuscitados e os vivos transformados irão ao encontro do Senhor. Então haverá céus novos e terra nova, porque céu e terra se unirão na plenitude do Reino.
Quaresma tempo de transformação
Por isso a Quaresma é mais do que um tempo de oração: é tempo de transformação. Devemos transformar a nossa casa, o nosso trabalho, a nossa comunidade, em campo de batalha espiritual. O chão que pisamos precisa de se tornar lugar de combate contra as armas do inimigo. Assim como no campo de batalha antigo ficavam os despojos — armas, roupas e riquezas dos vencidos —, também nós muitas vezes carregamos despojos espirituais: orgulho, vaidade, malícia, ressentimentos, pecados ocultos. Deus ordenava ao povo que queimasse os despojos do inimigo, que nada aproveitasse. Quando Saul desobedeceu e guardou o que deveria ser destruído, perdeu o reinado. Assim também nós não podemos guardar nada que pertença ao inimigo. Vícios, corrupção, ganância, sexualidade desordenada, mentiras e hipocrisias são armas que não nos pertencem. Se permanecermos revestidos delas, tornamo-nos posse daquele a quem pertencem.
Quaresma tempo de arrancar as vestes
A Quaresma é tempo de arrancar estas vestes. É tempo de mortificação. Mortificar significa dar morte à concupiscência — o impulso interior que nos arrasta e seduz. Como ensina a Carta de São Tiago (1,12-15), cada um é tentado pela própria concupiscência. Uma vez fecundada, ela gera o pecado; e o pecado, amadurecido, gera a morte. Primeiro a morte espiritual, depois a psicológica e até a física. A tentação prova-nos, como um teste de qualidade. Somos testados para adquirir firmeza espiritual. Feliz aquele que suporta a tentação, pois depois de aprovado receberá a coroa da vida. Não é Deus quem tenta; é a nossa própria concupiscência que nos seduz. Ela arrasta e encanta, como um sedutor habilidoso. Por isso não pode ser tratada superficialmente; precisa de ser combatida com decisão.
Não devemos temer a cruz
O inimigo foge da cruz. Devemos temer, isso sim, os prazeres mundanos, o excesso de glória, dinheiro e sucesso que nos afastam de Deus. Se morrermos carregando a cruz, seremos reconhecidos como pertencentes ao Senhor. O nosso corpo, templo do Espírito Santo, será guardado para a ressurreição. Também na família é necessário restaurar a autoridade verdadeira — não autoritarismo, mas responsabilidade de quem é autor da vida dos filhos. Muitos lares tornaram-se como rios sem margens. A Quaresma é tempo de recuperar direção, disciplina e firmeza espiritual dentro de casa. Assim, o convite é claro: esta carne que será ressuscitada não pode permanecer revestida das armas do inimigo. Precisamos de a colocar à prova, purificá-la, despojá-la de tudo o que não pertence a Deus. Porque, se estivermos revestidos dos despojos do inimigo na hora da morte, seremos considerados despojo dele. Mas, se estivermos revestidos das armas da justiça — humildade, oração, sacrifício e amor —, seremos reconhecidos como pertencentes ao Senhor para toda a eternidade. A Quaresma é tempo de batalha. É tempo de mortificação. É tempo de decisão.
