A IGREJA
O que a Igreja Católica ensina sobre o Inferno
- 26-11-2025
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O inferno segundo o Catecismo e a Escritura
Comecemos pelo próprio Catecismo da Igreja Católica (CIC), principalmente nos parágrafos 1033 a 1037, que descreve o inferno não tanto como um lugar físico, mas como um estado de autoexclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados.
Alguns postos-chave do ensinamento do Catecismo sobre o inferno:
Livre escolha: a condenação ao inferno é uma consequência da livre escolha do ser humano. Deus não predestina ninguém para o inferno. É a pessoa que, morrendo em pecado mortal, sem arrependimento e sem acolher o amor misericordioso de Deus, escolhe afastar-se d’Ele para sempre.
Pecado mortal: o estado de pecado mortal, ou seja, um pecado grave cometido com plena consciência e deliberado consentimento é o que leva à separação de Deus.
Separação de Deus: a essência do inferno é a privação eterna de Deus, a perda da comunhão com Ele, que é a fonte de toda a vida e felicidade. Esta é a pena principal.
Fogo eterno (Geena): o Catecismo menciona as advertências de Jesus sobre a “Geena”, o “fogo que não se apaga” e a “fornalha ardente” (cf. Mt 13,41-42; 25,41). Embora a natureza deste “fogo” seja um mistério, ele significa um tormento real e eterno. Não se deve interpretá-lo necessariamente de forma literal como fogo material, mas como um sofrimento intenso e sem fim.
Apelo à responsabilidade: a doutrina do inferno é um convite à responsabilidade sobre como usamos a nossa liberdade e um apelo urgente à conversão. A Igreja realça a necessidade de “entrar pela porta estreita” e de vigiar constantemente.
Realidade, não necessidade: a Igreja afirma que o inferno existe e que é possível ir para lá, mas não afirma que alguma pessoa específica esteja no inferno. Ela acredita que Deus deseja a salvação de todos e dá os meios para alcançá-la.
Quais são as expressões que o Novo Testamento usa para descrever a realidade do inferno?
a) Expressões de locais: sugerem o lugar mais afastado de Deus
No Novo Testamento, usa-se em sentido mais restringido: o lugar onde se encontram os demónios e os homens ímpios. Assim fala Jesus: “E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Não! Serás atirada até ao inferno!…” (Mt 11,23). O termo usa-se abundantemente no Apocalipse, onde designa um poço com fogo, habitação do demónio (9,1-2.11). Desse lugar, sairá a besta, mas, no fim, será lançada ali com os seus seguidores (Ap 11,7-8;20, 1-3.20; 2Pd 2,4).
Geena – este vocábulo aparece, frequentemente, na pregação de Jesus, tal como a consignam os Evangelhos: “Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na vida aleijado do que, tendo as duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível onde o verme não morre e o fogo não se apaga.” (Mc 9,43). Nesse local, os reis Acaz e Manasses praticaram o culto do Baal Moloque, que consistia em imolar e queimar crianças em sua honra (cf. 2 Rs 16,3).
b) Expressões de exclusão: que indica a separação de DEUS e do seu Reino. Estado de separação definitivo.
(Mt 25,41) “Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: – Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demónio e aos seus anjos.”
(Mt 7, 22-23) “Muitos me dirão naquele dia: – Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demónios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: – Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!”
São Paulo afirma que os ímpios e os pecadores obstinados serão excluídos do Reino de Deus (cf. 1 Cor 6,9-10; Gal 5, 19-20)
c) Morte eterna: estar separado de Deus significa morte eterna
A morte é consequência do pecado, a “segunda morte” (Ap. 20, 14) é a consequência da separação definitiva de Deus. Não crer em Cristo e não praticar a caridade leva à morte eterna (cf. 1 Jo 3,14.) “Nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos os nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte”.
d) Outras expressões bíblicas:
Fogo inextinguível e verme que não Morre: (Mc 9,44): “Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na vida aleijado do que, tendo as duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga.”
Trevas, choro e ranger de dentes: (Mt. 8,12) “enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes”. (Mt. 13,42) “e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes.”
Opróbrio: (Mt. 25,46) “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.”
Falta de repouso: (Ap. 14,11) “A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos. Não terão descanso algum, dia e noite, os que adoram a Fera e a sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal do seu nome.”
Em que consiste o inferno?
O inferno, mais do que um lugar, é a situação em que se vai encontrar quem, de maneira livre e definitiva, se afastar de Deus, fonte de vida e alegria. É a última consequência do próprio pecado, que se vira contra quem o cometeu. O Catecismo da Igreja Católica diz: “Morrer em pecado mortal, sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus, é a mesma coisa que morrer separado d’Ele para sempre, por livre escolha. E é este estado de autoexclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra ‘Inferno’” (n. 1033).
Então, o inferno consiste na completa frustração e no vazio de uma vida sem Deus, de uma existência do não-relacionamento com Deus e com os bem-aventurados. Com efeito, o inferno é o fechamento radical e total em si mesmo diante de Deus e dos homens, o não querer receber nada para depender só de si, querendo ser só o próprio eu.
Portanto, o inferno é, primeiramente, algo de imanente ou interior ao homem; é a criação do homem, não de Deus.
Diz São João Paulo II: “A «perdição» não deve, por isso, ser atribuída à iniciativa de Deus, pois, no Seu amor misericordioso, Ele não pode querer senão a salvação dos seres por Ele criados. Na realidade, é a criatura que se fecha ao Seu amor. A «perdição» consiste precisamente no definitivo afastamento de Deus, livremente escolhido pelo homem e confirmado com a morte que sela para sempre aquela opção. A sentença de Deus ratifica este estado.”
Quais são as penas dos condenados?
As penas do inferno são duas:
a pena da condenação: a autoexclusão definitiva da comunhão com Deus;
a pena dos sentidos: a desordem total na natureza sensível e espiritual do condenado devido à sua separação de Deus e dos bem-aventurados.
A pena da condenação consiste na separação definitiva de Deus, fonte de vida e de amor; é a pena principal. O afastamento total e definitivo do amor de Deus é a pior desgraça que pode acontecer a uma criatura. As consequências que a criatura experimenta quando se afasta de Deus são terríveis. É a tristeza, o desespero, a frustração total, a raiva e o ódio que o homem sente quando se fecha em si mesmo recusando a comunhão com o Deus-Amor.
A pena dos sentidos é um castigo secundário derivada da pena do dano. Em que consiste? O homem separado de Deus experimenta um vazio existencial. Uma vez que ele foi criado para a comunhão com Deus e com os seus semelhantes, quando separado de Deus falta-lhe um autêntico centro unificador da sua natureza e, por conseguinte, experimenta uma total desordem no seu ser e nas suas faculdades (no seu intelecto, na sua vontade, nos seus desejos etc.), bem como no seu relacionamento com os outros seres. A pena dos sentidos consiste neste caos que reina em todo o ser do condenado, no seu relacionamento perturbado com os outros seres. Uma vez que o condenado, por causa do seu ódio, é incapaz de se relacionar com os seus semelhantes e de integrar as coisas na sua própria existência, ele sente-se sozinho e, ao mesmo tempo, oprimido por toda a parte.
Como explicar o fogo do inferno?
Falando do inferno, a Escritura usa frequentemente a palavra “fogo”. Os padres da Igreja, bem como os teólogos, especularam acerca da sua natureza. Uns afirmaram que se tratasse de um fogo material, outros pensaram que ele fosse meramente uma imagem para expressar as penas do inferno. A Igreja nunca se pronunciou a respeito disso. Os teólogos que interpretam o fogo no sentido material discutem como um elemento material pode afetar ao espírito humano.
Alguns teólogos atuais dão a seguinte interpretação do “fogo” do inferno: Segundo eles, o “fogo” do inferno pode ser interpretado de dois modos complementares: Enquanto “fogo” não criado, é o próprio Deus: “o Senhor vosso Deus é um fogo devorador” (Dt 4,24). “Em Sião, os pecadores serão aterrados, o medo apoderar-se-á dos ímpios. Quem de nós poderá permanecer perto deste fogo devorador? Quem de nós poderá permanecer perto das chamas eternas?” (Is 33,14). O Deus de Amor é fogo devorador, fonte de alegria e gozo para os que O amam e, ao mesmo tempo, fonte de sofrimento e incómodo para os que O odeiam. Mesmo querendo fugir de Deus, os condenados sentir-se-ão eternamente incomodados pela sua existência e pelo seu amor. Pois Deus não para de amá-los ainda que eles O odeiem. E, portanto, eles têm que permanecer perto deste fogo devorador, que é o Amor infinito de Deus. (cf. Is 33,14)
Como a Doutrina da Igreja sobre a eternidade do inferno pode ser reconciliada com a infinita misericórdia de Deus?
Deus é Amor. Por ser Amor, Ele criou o homem à Sua imagem e semelhança criando-o livre e imortal. Toda a grandeza de Deus e do homem está neste dom da liberdade que é pressuposto para que a criatura possa amar o seu Criador. Quando o homem se revoltou contra Deus, Ele não o abandonou à sua miséria, mas enviou seu Filho amado como Salvador. Com efeito, Deus tem feito tudo para salvar a humanidade por meio do seu Amor redentor. Se o homem abusa da sua liberdade resistindo até o fim ao seu amor misericordioso, Deus, justamente por ser Amor, respeita a decisão da pessoa quando esta, na morte, quer separar-se definitivamente d’Ele. Por conseguinte, o inferno não é obra de Deus, mas obra do homem que se recusa a viver em comunhão com Ele.
Quantos se perdem? Haverá muitas almas no inferno?
Somente Deus pode responder com precisão a esta questão. Disse São João Paulo II no que diz respeito ao inferno:
“Jesus, em Mateus, fala claramente daqueles que irão para o suplício eterno (cf. Mt 25,46). Quem serão estes? A Igreja nunca se pronunciou a este respeito. Este é um mistério, verdadeiramente, imperscrutável, entre a santidade de Deus e a consciência do homem” (João Paulo II, Atravessar o limiar da esperança, p.171).
As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um convite à responsabilidade com a qual o homem deve usar da sua liberdade em vista do seu destino eterno. Constituem também um apelo insistente à conversão: “Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. E poucos são os que o encontram” (Mt 7,13-14):
Deus não predestina ninguém para o Inferno; para isso é preciso uma aversão voluntária a Deus (um pecado mortal) e persistir nela até o fim. Na Liturgia Eucarística e nas orações cotidianas de seus fiéis, a Igreja implora a misericórdia de Deus, que quer “que ninguém se perca, mas que todos venham a converter-se” (2Pd 3,9): Recebei, ó Pai, com bondade, a oferenda dos vossos servos e de toda a vossa família; dai-nos sempre a vossa paz, livrai-nos da condenação e acolhei-nos entre os vossos eleitos (Cânone Romano).
Na encíclica Spe Salvi, o Papa Bento XVI faz alusão a recentes episódios da história do mundo em que ficou evidente como o uso abusivo da liberdade pode levar, já neste mundo, a uma opção irremediável pelo mal:
Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspectiva terrível, mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste género. Em tais indivíduos, não haveria nada de remediável e a destruição do bem seria irrevogável: é já isto que se indica com a palavra inferno” (III, 45)
Numa era frequentemente inclinada a descartar doutrinas tradicionais, poder-se-ia perguntar: Ainda é relevante, ou mesmo aconselhável, falar sobre o inferno ao homem contemporâneo? Não seria melhor simplesmente deixar esta doutrina de lado? Contudo, a pedagogia divina, manifestada profundamente nas vidas dos santos e místicos da Igreja, sugere fortemente o contrário.
Consideremos Santa Teresa de Ávila, que relata na sua autobiografia como uma vívida visão do inferno se tornou “uma das maiores graças” que o Senhor lhe concedeu (Livro da Vida, 32, 4). Esta profunda experiência acendeu nela um amor tão intenso por Nosso Senhor que, como ela expressa no seu Caminho de Perfeição (cf. Caminho de Perfeição, 1, 2; Livro da Vida, 32, 6), estaria disposta a sacrificar mil vidas pela salvação de sequer uma alma que se precipitava no abismo eterno.
