A IGREJA
A moral cristã não é um conjunto de proibições, mas um caminho para a felicidade
- 21-08-2026
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Para compreender esta verdade, somos convidados a reflectir sobre a passagem do Evangelho de São Mateus (Mt 19,16-26), na qual um jovem rico se aproxima de Jesus com uma indagação essencial:
“Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?” Jesus responde: “Se queres entrar na vida, observa os mandamentos”. O jovem perguntou quais, e Jesus citou os preceitos do Decálogo: “Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra pai e mãe, ama o teu próximo como a ti mesmo”. O jovem replica: “Tudo isso tenho observado. Que me falta ainda?”. Jesus diz: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Ao ouvir isto, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitos bens. Quando ouviu esta palavra, o jovem foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens.”
O encontro entre o jovem rico e Jesus foi o tema central da encíclica O Esplendor da Verdade, publicada pelo Papa São João Paulo II em 8 de Agosto de 1993. Neste documento, o Papa esclarece que há uma relação estreita e profunda entre o bem moral e a vida eterna.
A moral Cristã e a protecção dos bens fundamentais
Ao perguntar o que deveria fazer de bom, o jovem queria um esclarecimento sobre a maneira justa, honesta e correta de viver a sua vida para poder ter a vida eterna. Ao responder “se queres entrar na vida, observa os mandamentos”, Jesus conecta directamente a observância da lei divina à posse da vida em abundância. Os mandamentos indicam o caminho que dignifica o ser humano e ensinam a trilhar a estrada da verdadeira felicidade.
Não matarás: protege a vida humana.
Não cometerás adultério: protege a comunhão do matrimónio.
Não roubarás: protege a propriedade privada.
Não levantarás falso testemunho: protege a veracidade e a boa fama.
Dentre os mandamentos citados por Jesus, vários têm uma formulação proibitiva ou negativa: não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho. No número 13 da encíclica O Esplendor da Verdade, São João Paulo II explica que estes preceitos negativos cumprem uma função essencial: tutelar e proteger o bem da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus. São normas morais formuladas como proibição, mas defendem valores inegociáveis e irrenunciáveis.
A dignidade humana
Elas garantem que ninguém tenha dúvidas sobre a dignidade humana que deve ser resguardada. Por isso, mesmo sendo negativos, os mandamentos proibitivos defendem valores inegociáveis: o bem da pessoa humana, a dignidade da pessoa humana e, portanto, a protecção dos bens irrenunciáveis. Estão aqui em jogo valores fundamentais.
Porém, São João Paulo II, ainda nesse número 13, diz o seguinte: “Os mandamentos representam, portanto, a condição básica para o amor ao próximo e são, ao mesmo tempo, a sua confirmação; afirmam a maneira com a qual nós devemos viver a nossa vida e o nosso relacionamento com o próximo. Constituem a primeira etapa necessária no caminho para a liberdade, o seu início.” Que coisa bonita: os mandamentos de Deus, diz São João Paulo II, são a primeira etapa necessária no caminho para a liberdade.
A moral cristã e o início da liberdade
São João Paulo II ensina que os mandamentos são a primeira etapa necessária no caminho para a liberdade, o seu início. Aprofundando esta ideia, o Papa cita Santo Agostinho:
“A primeira liberdade consiste em estar isento de crimes. Como seja o homicídio, o adultério, a fornicação, o furto, a fraude, o sacrilégio e assim por diante. Quando alguém começa a não ter estes crimes — e nenhum cristão os deve ter —, começa a levantar a cabeça para a liberdade. Mas isto é apenas o início da liberdade, não a liberdade perfeita.”
Ao evitar estes pecados, o cristão dá o primeiro passo rumo à liberdade. Depois que Jesus cita os mandamentos, o que o jovem rico disse a Jesus? “Tudo isso tenho observado. Que me falta ainda?” A doutrina moral ensina que não basta simplesmente observar os mandamentos da lei de Deus. É importante observá-los, mas nós precisamos de fazer progressos na vida espiritual.
Faltava-lhe levantar voo na liberdade perfeita. Ele vivia uma tristeza interior porque não era ele quem tinha os bens; eram os bens que tinham e escravizavam o seu coração. Sendo escravo dos seus bens, ele não conseguia levantar voo na conquista da liberdade perfeita; estava preso, era escravo, não conseguia progredir na graça e na vocação, tornando-o incapaz de se fazer discípulo de Jesus.
O Catecismo da Igreja Católica e a estrutura da fé
Em 1992, São João Paulo II publicou o Catecismo da Igreja Católica, apresentando uma exposição sistemática da doutrina moral. O Catecismo articula a fé da Igreja em quatro partes:
A Profissão de Fé: explicação do Credo (Símbolo dos Apóstolos e Símbolo Niceno-Constantinopolitano).
A Doutrina da Liturgia e dos Sete Sacramentos: ou seja, apresenta a fé que é celebrada.
A Doutrina Moral Católica: a fé testemunhada e o agir cristão.
Fé Rezada: a oração e o cultivo da comunhão com Deus.
No parágrafo 1718, o Catecismo recorda que o desejo de felicidade é de origem divina: Deus colocou-o no coração do homem para o atrair a Si. Já o parágrafo 1724 indica que o Decálogo, o Sermão da Montanha (Mt 5–7) e a catequese apostólica traçam os caminhos do Reino dos Céus, nos quais nos metemos dia a dia, sustentados pela graça do Espírito Santo. Assim, Deus revela os mandamentos para que nós saibamos o caminho a ser trilhado, de modo que possamos ser felizes e, um dia, possamos chegar à felicidade plena, à felicidade eterna.
A liberdade humana e a responsabilidade dos actos
Deus conta com a nossa liberdade, Deus conta com a nossa vontade e com a escolha do bem. “Que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”, perguntou o jovem rico a Jesus. O que devo escolher de bom no meu dia a dia? Só é possível fazer escolhas de acordo com o bem, a verdade, o amor e a justiça com o auxílio da graça de Deus. A graça de Deus motiva e chama a nossa liberdade e a nossa vontade para que nós possamos aderir sempre ao bem, à justiça, ao amor e à verdade.
A moral católica considera profundamente a liberdade humana (CIC 1731). Mas, o parágrafo 1733 destaca: “Quanto mais pratica o bem, mais a pessoa se torna livre. Não há verdadeira liberdade a não ser no serviço do bem e da justiça.” A escolha do mal e do pecado é um abuso da liberdade que leva à escravidão. Vivemos tempos em que as pessoas têm enorme dificuldade de assumir a própria responsabilidade:
No bem: a pessoa exige aplausos, vaidade e o seu nome na obra.
No mal: adopta a lógica do “filho feio não tem pai” ou desculpa-se dizendo: “Não fui eu que bati, foi a minha mão”, repetindo a atitude de criança que culpa o irmãozinho. Mesmo no confessionário, muitos tentam confessar os pecados justificando-se pelos erros dos outros.
Além disso, há uma diferença fundamental entre o pecado cometido por fraqueza (quando a pessoa se deixa levar pela tentação) e o pecado cometido por maldade e perversão (quando a pessoa escolhe deliberadamente a vingança e o mal), sendo este último muito mais grave. Nós não podemos colocar a nossa liberdade ao serviço do pecado, colocar a nossa liberdade ao serviço do mal.
A necessidade do discernimento dos actos
Deus capacitou-nos com uma consciência moral, com uma capacidade de discernir entre o bem a ser feito e o mal a ser rejeitado, para que nós, pela nossa vontade livre, possamos sempre escolher o bem. Diante de decisões importantes ou do discernimento vocacional para os ministérios ordenados (diácono, padre, bispo), para a vida familiar, vida consagrada, faça a si mesmo a pergunta: “O que Jesus faria nesta situação?”
Coloque-se em oração, atento aos sinais do Espírito Santo. É preciso ter sempre o coração aberto à acção do Espírito Santo, porque o Espírito Santo indicará o que deves fazer: como ser uma pessoa feliz, como ser uma pessoa feliz na vocação que escolheste. Deus não escolherá por nós, mas vai nos ajudar para que possamos escolher a realização da Sua santa vontade.
A moral cristã no cumprimento da lei
Em Mateus 5,17, Jesus afirma: “Não penseis que vim abolir a lei e os profetas. Não vim abolir, mas completar.” E João 1,17 recorda: “A lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.” Da pessoa de Jesus nos vem a graça para colocarmos em prática os mandamentos.
Conforme ensina Santo Agostinho, ao reconhecermos a nossa fragilidade diante da lei, devemos clamar o “Vinde, Espírito Santo” e buscar nos sacramentos a força necessária. Na encíclica Esplendor da Verdade (n. 15), São João Paulo II explica que Jesus leva a cumprimento os mandamentos interiorizando e radicalizando as suas exigências.
Na verdade, a liberdade perfeita
No confessionário, não raramente alguém diz: “Padre, não roubei, não matei, não adulterei…”. Ao aprofundarmos o exame de consciência e o Evangelho, surge a desculpa: “Ah, padre, mas uns olhares, todo o homem dá…”. Jesus exige a castidade dos olhos, do coração e dos desejos. Ele torna a lei mais exigente não para nos oprimir.
Nós não podemos entender a doutrina moral como um simples conjunto de proibições. As proibições fazem parte, mas não são só isso. Nós somos chamados a trilhar um caminho que nos leva à felicidade eterna, à liberdade perfeita; um caminho que passa pelos mandamentos da lei de Deus para os colocar em prática no nosso dia a dia, de modo que assim levantemos voo na realização da nossa vocação à santidade e à vida bem-aventurada.
A moral prática no catecismo
A secção prática da moral no Catecismo ensina como relacionar honesta e justamente a nossa vida com Deus, connosco mesmos, com o próximo e com a criação:
Relacionamento com Deus: a virtude da religião (superando o ateísmo e a superstição).
Relacionamento com o próximo e com a sociedade: assuntos como matrimónio, sexualidade, fertilização artificial e a Doutrina Social da Igreja. A moral católica ensina como actuar na política, escolher candidatos e participar do bem comum — incluindo o posicionamento ético diante do avanço da inteligência artificial.
Relacionamento com a criação: como ensinou Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate, o cuidado com a Casa Comum é uma exigência do amor ao próximo, garantindo um mundo bom para as futuras gerações.
Invoquemos o Espírito Santo de Deus para que, pela graça que vem do coração de Jesus, nós possamos crescer na liberdade. Nós possamos realizar a nossa vocação à bem-aventurança.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Amém.
