Ave Maria Imaculada... Rezai o Terço todos os dias... Mãe da Eucaristia, rogai por nós...Rainha da JAM, rogai por nós... Vinde, Espirito Santo... Jesus, Maria, eu amo-Vos, salvai almas!

Quaresma-Páscoa

JEJUM

JEJUM

 

O termo jejum é frequente na Bíblia (27 vezes no AT e 9 no NT), assim como jejuar (32 vezes no AT, 19 vezes no NT). No AT fazia parte dos ritos de penitência (1Sm 7,6; Jl 1,14;2,15) e também estava unido ao luto (2 Sm 1,12;3,35; Jdt 8,5-6) ou a uma calamidade. Com ele pretendia-se comover a divindade a ter piedade e a ouvir a prece do penitente. É-nos proposto na Quarta-Feira de Cinzas e em Sexta-Feira Santa.

Vários jejuns

Ao princípio só havia jejum no DIA DA EXPIAÇÃO (Lv 16,29-31; Nm29,7;Act 27,9). No tempo do Exílio, o jejum ritualizou-se em mais QUATRO LITURGIAS COLECTIVAS (que incluíam uma assembleia solene, sacrifícios, confissão pública dos pecados e rituais de luto) para comemorar acontecimentos trágicos importantes:
+ no 10º mês, o cerco a Jerusalém (2Rs25,1;Zc8,9);

+ no 4º mês, a brecha na muralha de Jerusalém (2Rs25,4;Zc8,19);

+ no  5º mês, a tomada de Jerusalém (2 Rs25,8;ver Zc 8,18-19);

+ no 7º mês, o assassinato de Godolias, governador da Judeia (2 Rs 25,25; Zc 8,19). A ritualização levou a exageros formalistas, contra os quais lutou o Segundo Isaías (Is 58). Por isso, depois do Exílio, o povo pergunta ao profeta Zacarias se os jejuns ainda são necessários (Zc 7,1-14).

O judaísmo dará grande importância ao jejum, como se vê nos textos de Ester (4,1-17; C,13) e de Judite (4,8-11;8,6;9,1;12,9). Torna-se uma espécie de sacrifício da pessoa, em lugar das vítimas sobre o altar, na linguagem dos rabinos (Berakot,II).

Os fariseus irão proclamar dois jejuns por semana (2ª e 5ª feira), porque se dizia que Moisés subiu ao Sinai no 5º dia da semana e desceu no 2º. A estes acrescentaram-se os jejuns individuais, como o dos discípulos de João (Mt 9,14-15; Mc 2,18-20; Lc 5,33-34).

O formalismo farisaico acabará por destruir toda a teologia da pregação dos profetas acerca do jejum no pós-Exílio. Esta teologia fazia do sacrifício do coração um sacrifício superior aos sacrifícios sangrentos do Templo. O judaísmo farisaico, ao canonizar o jejum, acabará por matar o espírito em favor da letra.

Sentido espiritual do jejum

No primeiro acto da sua Vida Pública, Jesus apresenta-se a jejuar no deserto (Mt 4,1-11 par.); mas este gesto é um memorial do deserto que Ele vem repetir e superar, pois supera as tentações do deserto e cria e conduz um povo mais perfeito que o do deserto, comandado por Moisés. Supera o jejum do AT, no sentido em que o importante, daí para o futuro, não é o jejum em si mesmo, mas a própria pessoa de Jesus.

É neste sentido ainda que Ele critica o jejum dois fariseus (Mt 6,16-18). Por isso, será criticado por não jejuar (Mt 11,19; Act 13,2-3), porque os fariseus jejuam com frequência (Mt 9,14-15; Mc 2,18-20; Lc 5,33-35), mesmo duas vezes por semana (segunda e quinta-feira: Lc 18,9-14). Será por este motivo que o autor da Didaqué (8,1) aconselhava a jejuar em dias diferentes: quartas e sextas.

O jejum de Cristo é proclamação da sua liberdade soberana em relação À sua acção messiânica: Ele vive toda a sua vida em atitude de jejum, tal como qualquer um de nós é chamado a viver nessa atitude.

A sua tentação vai unida ao Baptismo, porq as opções (sentido da tentação) exigem discernimento.

As tentações de Jesus – tais como as pessoas – são as do Ter, do Poder e do Prazer. Lucas diz que a última é em Jerusalém, porque lá estão os piores inimigos de Jesus: Judas é vencido e, depois, acontece a Paixão. A tentação do Ter é de hoje: a publicidade cria-nos necessidades artificiais. O sacrifício, a solidariedade e a doação passaram de moda.

No seguimento do judaísmo, as primeiras comunidades tinham ficado com esta prática: o jejum irá continuar a existir na Igreja, na sua função relativa: Mt 9,15; Mc 2,20; Lc 5,35; Act 13,3; 14,23; 27,9. Mas nas Cartas nunca se fala do jejum.

Este jejum cristão torna-se um ritmo de participação nos sofrimentos de Cristo e do mundo em que vivemos.

Função social do jejum

Jesus não canonizou o jejum. No seguimento da teologia dos profetas, o jejum, no NT, tem como função aproximar as pessoas de Deus e dos seus irmãos. Mas há jejuns que não levam a Deus, desviam a atenção para coisas secundárias (Is 1,10-14; 58,6-7; Zc 7).

O verdadeiro jejum é o que tem um sentido positivo, o que conduz a pessoa a viver segundo três fidelidades: a si mesma, a Deus e ao próximo. Por isso, os profetas muitas vezes condenam um jejum que, limitando-se apenas à vivência das duas primeiras fidelidades, não tem em conta sobretudo as classes mais desfavorecidas: Is 1,10-14. O verdadeiro jejum consiste em “repartir o pão com os famintos” (Is 58,7; Ez 18,16).

A penitência pela penitência, o jejum pelo jejum não são propriamente cristãos, porque o único absoluto, com valor em si mesmo, é Cristo e o seu Reino. O jejum abre a pessoa aos outros, pois o que jejua sente em si mesmo as carências que são correntes e contínuas naqueles que vivem sempre... em jejum.

Por isso, Jesus criticou o ritualismo do jejum (Mt 4,2; 9,15; 17,21; 9,29; Lc 5,35) e a Igreja primitiva guardou este costume judaico, sem o absolutizar (Act 13,2; 14,23). O próprio Paulo afirma que “o Reino de deus não consiste em comer ou beber” ou em não comer nem beber, mas na justiça, na paz e na alegria, q vem do Espírito Santo (Rm 14,17; Cl 2,16; 1Tm 4,1-5).

O jejum prepara um acontecimento de fé

O jejum exprime sempre um momento importante na vida do povo de Deus. Assim, Moisés pode dizer ao seu povo: “Prostrei-me depois diante do Senhor durante quarenta dias e quarenta noites, como da primeira vez, sem comer pão nem beber água, por causa de certo pecado que cometestes, fazendo o que era mal aos olhos do Senhor e ofendendo-O. É que eu estava aterrado com a cólera e a indignação que o Senhor manifestava contra vós, a ponto de vos querer exterminar: Contudo, o Senhor ouviu-me, ainda desta vez. O Senhor irritara-se também muito contra Aarão, de tal modo que queria exterminá-lo; mas, nesse dia, eu intercedi igualmente por Aarão”. (Dt 9,18-20)

A comunidade cristã também se preparava com o jejum, antes de impor as mãos aos missionários enviados em missão (Act 13,2-3; 14,23).

Os quarenta dias de jejum de que fala Moisés têm o significado de um grande acontecimento que vai começar: a aliança do Sinai, a peregrinação do povo durante quarenta anos até à Terra Prometida (como os quarenta dias de Elias no deserto, antes do encontro com Deus no Horeb).

O sentido do jejum da Quaresma é exactamente preparar o grande acontecimento da Páscoa. Sendo abstenção de comida material, facilita uma espécie de ascensão do material ao espiritual, criando um estado de espírito que favorece a escuta da Palavra, a oração e a intimidade com Deus.

Daí a ligação espiritual, simbólica entre o deserto e o jejum como expressão da oração. Embora com sentido diferente, aproxima-se desta ideia o jejum das chamadas greves da fome, em q se pretendem atingir certos fins humanos mediante “o protesto” manifestado no jejum.

O jejum, enquanto renúncia, sacrifício e “morte”, actua em nós a Paixão e Morte de Jesus; levando a uma vida nova, actua em nós a ressurreição de Jesus.

Torna-se, assim, um sacramento da n/ inserção no mistério pascal do Senhor e símbolo da nossa luta contra o mal. Aproxima-nos do sentido dos grandes personagens da Bíblia na sua quarentena de jejum, mas não é tristeza, pois o Esposo está no meio de nós (Jo 3,29).

Nas tentações de Jesus aparece clara a relação bíblica entre o pão e a Palavra; isso faz-nos pensar num jejum que prepara o crente para melhor acolher a Palavra, no sentido em que não ganha fome apenas para o pão material, mas também para o pão espiritual da Palavra.

Renunciar ao pão humano recorda a existência de um Pão mais importante, que é Cristo e a sua Palavra.

Deste modo, a abstenção do pão e da água terrenos, de que tanto necessitamos para viver, faz-nos recordar a fome e a sede daquele q nos criou e para o qual tendemos, mesmo sem nos darmos conta: “Como suspira a corça pelas águas correntes, assim minha alma suspira por Ti, ó meu Deus”. (Sl 42,1).

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