Ser feliz; mais do que um direito, uma vocação

 

Ser feliz: mais do que um direito, uma vocação  

 

A felicidade, por tantos almejada, não se encontra no instante da realização, mas no processo da busca

A natureza da ação humana desde sempre – e mais intensamente agora – é norteada por um objetivo em comum: a busca da felicidade. Em todas as empreitadas que se propõem, os homens têm como “pano de fundo” a premissa do direito intrínseco e inalienável de serem felizes. E no afã de tal objetivo, lançam mão de todos os recursos, expedientes e vias que julgarem necessárias, pois, como afirmou Nicolau Maquiavel, “os fins justificam os meios”. No entanto, até que ponto a busca pela felicidade é parâmetro inconteste para a ação humana? Qual a felicidade que o homem moderno procura? Ao lançar-se em busca de ser feliz a todo e qualquer custo, não estaria ele, na verdade, a trilhar o caminho inexorável da infelicidade?

A ilusão da felicidade gratuita, sem compromisso e perene, tem seduzido a muitos como o canto das sereias na mitologia grega. E tal como no mito, lançando o barco das vidas dos seduzidos nas rochas das frustrações, decepções e tristezas. No âmbito filosófico, a felicidade pode ser descrita como “estado de satisfação devido à situação no mundo”, e como tal, é um conceito humano e mundano.

A felicidade, dentro deste parâmetro, está alicerçada no que o mundo, dentro da sua materialidade, pode oferecer. As experiências sensoriais são descritas como o ápice da sensação de felicidade. As coisas, o lugar e o alimento constituem-se como as grandes vias de alcance da meta universal que é ser feliz. Não esquecendo que tudo isto deve ser alcançado com o gasto mínimo de energia, dentro da lei do menor esforço.

 “O que é bom não pode ser fácil, e o que é fácil não pode ser bom.”

A felicidade por tantos almejada não se encontra no instante da realização, mas no processo da busca. Exatamente por isso, mais importante do que enrijecer os olhos na meta, é fundamental contemplar o cenário, olhar em volta e apreciar a paisagem, notar as pessoas que dividem conosco a jornada. Tudo isto possibilita a aquisição do cerne, da essência da felicidade: o sentido.

 “Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt 6,21).

O que tem feito levantares-te, cada dia, e seguir em frente? O que o impulsiona a enfrentar os desafios de cada dia, as dificuldades multiformes do deslocamento, do trabalho, saúde e finanças? O que o faz voltar a acreditar e dizer para si mesmo “não vou desistir” quando os que estão ao teu redor começam a entregar os pontos? O que para ti continua fundamental, essencial, basilar, ainda que as pessoas, o mundo, não o percebam assim? Aí está o sentido para ti.

Onde depositamos o sentido da nossa vida?

A percepção do sentido é reveladora, pois favorece um profundo desnudar de si para si e possibilita contemplar a natureza do próprio sentido assumido. Ou seja, aquilo que nos é mais caro, é onde depositaremos o nosso coração, e também o sentido da nossa vida, que é breve e extraordinária. Trágico é equivocar-se nesta ação e eleger como central o que é periférico, como eterno o que é efémero, como essencial o que é dispensável.

Jesus nunca se impôs, por meio da sua condição divina, a nenhum homem, enquanto aqui esteve no seu apostolado, para que alguém o seguisse. Na sua pedagogia, primou sempre pela nossa liberdade, por compreender que apenas nela é possível surgir o verdadeiro amor, capaz de gerar o seguimento, por meio do encontro do sentido, do bem maior, do tesouro.

Santidade, única via para a real felicidade

O encontro com Jesus é capaz de gerar no homem o despertar da sua vocação primeira e original: a santidade. A partir deste encontro de amor, tudo que é vivenciado ganha novas cores, nova conotação. Surge no interior de quem adere a este caminho uma felicidade que não está no ponto futuro, mas nas opções que faço no hoje. Não se encontra no que ainda verei, mas é assegurada pela convicção ímpar que brota da fé. Para além das transitoriedades do mundo material, onde a felicidade é circunstancial e reativa ao meio e ao tempo, com Jesus ela é perene e contínua, pois é originada no Eterno.

Ser santo é obra de uma vida.

A busca pela santidade é a via única para a real felicidade, que em centelha aqui experimentamos. A certeza de que nos caminhos do Senhor seremos tudo aquilo que podemos e devemos ser. Para além das ilusões, das imperfeições, dos limites, o eterno que está em nós busca o Eterno que é Deus. Nele somos e seremos felizes em plenitude. Para tal basta apenas que renovemos diariamente o nosso sim, a nossa adesão livre e amorosa ao seu convite. Tu já deste o teu ‘sim’ de hoje à felicidade?

“Fé é assim: primeiro, colocas o pé, depois, Deus coloca o chão.”