Os leigos e a crise na Igreja

Os leigos e a crise na Igreja

 

O ofício de ensinar foi confiado directamente à hierarquia da Igreja (o Papa e os bispos em si mesmos, e padres e diáconos por extensão), mas os leigos não só podem, como devem “pregar”. Neste tempo de grande confusão entre os próprios membros da hierarquia, que supostamente deveriam exercer este ofício, a “pregação” do laicado — incluindo a sua maciça presença na internet — assume uma importância ainda maior.

Este tema já foi abordado pelo Papa Leão XIII na sua carta encíclica Sapientiae Christianae, de 1890. Recordando que cabe ao episcopado ensinar com autoridade em nome de Cristo, o Papa afasta uma falsa conclusão que disso se poderia extrair:

Ninguém pense que ficou proibido aos particulares de cooperar com alguma diligência no ministério de ensinar, principalmente às pessoas a quem Deus concedeu dotes de inteligência juntamente com o desejo de serem úteis ao próximo. A todos os fiéis cristãos, principalmente aos que têm superioridade e obrigação de ensino, suplicamos por intermédio de Jesus Cristo, e em virtude da autoridade deste mesmo Senhor e Salvador nosso, lhes ordenamos, que apliquem todo o seu zelo e trabalho em desviar esses erros e eliminá-los da luta da Igreja, e difundir a luz puríssima da nossa fé’ (Concílio Vaticano I, Cons. Dogm. Dei Filius).

Por fim, lembrem-se todos que podem e devem disseminar a fé católica com a autoridade do exemplo e pregá-la com uma profissão constante. Assim, nos deveres que nos ligam a Deus e à Igreja está em primeiro lugar o zelo com que cada qual deve trabalhar segundo as suas forças em propagar a doutrina cristã e refutar os erros.

Quando uma pessoa é baptizada, é introduzida no múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo Senhor (cf. CI C, nn. 901-913): é o que denominamos “sacerdócio universal dos fiéis”. Devido ao carácter sacramental impresso na essência das suas almas, os cristãos têm o poder de oferecer a Deus os seus corpos e almas, os seus trabalhos e sofrimentos — o mundo inteiro, enfim, que geme por salvação. Este acto de auto-oblação, em união com o Salvador da humanidade, e de esforço por conduzir as realidades temporais à sua finalidade evangélica, deve penetrar todos os aspectos da vida diária do cristão, ainda que ele sempre venha a encontrar a resistência do mundo, da carne e do diabo.

É assim também que S. Tomás de Aquino entende os efeitos do sacramento da Confirmação (cf. Suma Teológica, III, q. 72): a todo o cristão, em virtude do carácter sacramental conferido por esta unção, é dada a força para testemunhar publicamente a única fé verdadeira, pelo exemplo de vida, pela pregação e a apologética, por qualquer outro tipo de testemunho, inclusive o do sofrimento silencioso.

Para o laicado, assim como para as pessoas que estão na vida religiosa, pregar obviamente não significa uma pregação formal no contexto da liturgia. Mas, se tivermos um entendimento mais profundo de pregar como levar o Evangelho ao mundo e torná-lo vivo pela graça de Deus, veremos que não há limites para o número de maneiras através das quais a Boa Nova pode ser espalhada e compartilhada com as pessoas.

A mãe e o pai de família que ensinam os filhos sobre Deus, que os introduzem na vida de Jesus, de sua Mãe e dos santos, são verdadeiros anunciadores da Boa Nova, transmissores do depósito da fé, “mestres da verdade e pregadores da graça”, como São Domingos. Através de um direito e um dever ao mesmo tempo natural e dado por Deus, eles servem como os primeiros catequistas e pregadores da fé a seus filhos e, nesse sentido, possuem um direito e um dever de transmitir a ortodoxia e afastar a heresia, que não podem ser removidos nem substituídos por pastor algum da Igreja — ainda que seja também verdade que o laicado permanece sob a guia e a autoridade magisterial dos seus pastores, responsáveis que são por transmitir a palavra da verdade.

A pregação aos afundados no erro ou na descrença deve ser, no mais das vezes, ou apologética ou argumentativa, tentando mostrar a essas pessoas a verdade da posição católica. Mas também precisa de fomentar as questões para as quais só o Evangelho — ou melhor, a Pessoa de Cristo — pode dar respostas definitivas.

Devido à disseminação do materialismo científico e comercial, existe hoje uma tremenda ignorância das realidades espirituais, uma falta de admiração a respeito de Deus e da alma, uma falta do tipo de questões que constituem terreno fértil para a graça da conversão. O convite a um banquete não é atractivo senão quando se tem fome e sede.

A pregação aos que já são católicos, os de nome, os que estão à margem, aos confusos, aos sinceros, tenderá a ser, por outro lado, expositiva e exortativa, um esforço por conduzir essas pessoas a um entendimento mais profundo, bem como a uma integração mais consistente de fé e vida. Os melhores “pregadores” leigos devem encontrar modos de acender nos católicos uma consciência do imenso caudal de graças que eles receberam no Baptismo — sobretudo, o poder de receber Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, na Santa Comunhão: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim, e eu nele” (Jo 6, 56), e a tremenda misericórdia do sacramento da Confissão, por meio do qual o mesmo sangue lava os nossos pecados e restaura ou aumenta a graça em nossas almas.

Em tudo isto, podemos ver o enorme poder e responsabilidade do jornalismo e das publicações católicas em todos os meios de comunicação. Esse trabalho é parte da missão evangelizadora da Igreja, um verdadeiro apostolado de repassar a fé católica recebida.

Por isso, na próxima vez que tu fores tentado a reclamar por uma homilia ruim que escutaste ou de um pastor que não vive de acordo com o seu ofício de pregador (porque diz falsidades, sem dizer nada de substancial, porque vive de uma maneira que contradiz a fé católica), faz uma pausa, olha para dentro de ti mesmo e pergunta-te como anda a tua própria “pregação”: o teu compromisso com a vida de oração, o teu bom exemplo e as tuas obras de testemunho.