Revelações sobre o purgatório

Revelações sobre o purgatório recebidas por duas místicas da Igreja Católica

Aprouve a Deus mostrar em espírito as sombrias moradas do Purgatório a algumas almas privilegiadas. Foi deste número Santa Francisca, fundadora das Oblatas.

A serva de Deus declara que, depois de ter suportado com horror indescritível a visão do Inferno, saiu daquele abismo e foi conduzida pelo seu guia celestial até às regiões do Purgatório. Ali não reinava nem o terror nem a desordem, nem o desespero nem a escuridão eterna; ali a esperança divina difundia a sua luz, de modo que, como lhe disseram, este lugar de purificação também era chamado de “estadia de esperança”. Ela viu ali almas que sofriam cruelmente, mas anjos as visitavam e assistiam nos seus sofrimentos.

O Purgatório, dizia, é dividido em três partes distintas, que são como que as três grandes províncias daquele reino de sofrimento. Elas estão situadas uma abaixo da outra, e são ocupadas por almas de diferentes ordens, estando estas mais profundamente submersas quanto mais contaminadas e distantes estiverem da hora da sua libertação.

A região mais baixa é repleta de um fogo violento, mas não tão obscuro como o do Inferno; trata-se de um vasto mar de fogo, do qual são expelidas chamas imensas. Inumeráveis almas encontram-se mergulhadas nessas profundezas: são as que se tornaram culpadas de pecados mortais, devidamente confessados, mas não suficientemente expiados em vida. A serva de Deus aprendeu que, por cada pecado mortal perdoado, resta à alma culpada passar por um sofrimento de sete anos. Esse prazo não pode evidentemente ser encarado como 1 medida definitiva, mas como uma pena média, já que pecados mortais diferem em enormidade. Ainda que as almas estejam envoltas pelas mesmas chamas, os seus sofrimentos não são os mesmos: eles variam de acordo com o número e a natureza dos pecados cometidos.

Neste Purgatório mais baixo a santa notou a presença de leigos e de pessoas consagradas a Deus. Os leigos eram aqueles que, depois de uma vida de pecado, tiveram a alegria de se converterem sinceramente; as pessoas consagradas a Deus eram aquelas que não tinham vivido de acordo com a santidade do seu estado de vida.

Naquele mesmo momento, ela viu descer a alma de um sacerdote conhecido dela, mas cujo nome ela não revela: o padre tinha a face coberta com um véu que escondia uma mancha. Embora tenha levado uma vida edificante, este padre não tinha observado sempre com rigor a virtude da temperança, tendo procurado muito ardentemente as satisfações da mesa.

A santa foi conduzida ao Purgatório intermediário, destinado às almas que tinham merecido um castigo menos rigoroso. Aí havia três distintos compartimentos: um que lembrava um imenso calabouço de gelo, cujo frio era indescritivelmente intenso; o segundo, ao contrário, era como um grande caldeirão de óleo e massa fervente; o terceiro tinha a aparência de um lago de metal líquido semelhante a ouro ou prata fundidos. Tal é a visão de Santa Francisca Romana relativa ao Purgatório.

O que segue, agora, é um registro de Santa Maria Madalena de Pazzi, uma carmelita de Florença, tal como está relatado na sua biografia, escrita pelo pe. Cepare. A sua revelação dá uma figura mais completa do Purgatório, ao passo que a visão precedente não faz senão traçar os seus contornos.

Algum tempo antes da sua morte, que aconteceu em 1607, a serva de Deus, Maria Madalena de Pazzi, estando uma noite com várias outras religiosas no jardim do convento, foi arrebatada em êxtase e viu o Purgatório aberto diante de si. Ao mesmo tempo, como ela deu a conhecer depois, uma voz fez-lhe o convite para visitar todas as prisões da Justiça divina e contemplar como são verdadeiramente dignas de compaixão todas as almas detidas neste lugar.

Neste momento, ouviu-se ela dizer: “Sim, eu irei”, consentindo em empreender esta dolorosa jornada. De facto, caminhou durante duas horas em torno do jardim, que era muito grande, fazendo pausa de tempos em tempos. Cada vez que interrompia o passo, contemplava atentamente os sofrimentos que lhe eram mostrados. Ela foi vista, então, a apertar com força as mãos e a pedir compaixão, o seu rosto tornou-se pálido e o seu corpo curvou-se sob o peso do sofrimento, em presença do terrível espetáculo com o qual ela se confrontava.

A santa começou a lamentar-se em alta voz: “Misericórdia, meu Senhor, misericórdia! Descei, ó Sangue Precioso, e libertai estas almas da sua prisão. Pobres almas! Sofreis tão cruelmente e, no entanto, estais tão contentes e alegres. Os cárceres dos mártires, em comparação com estes, eram jardins de deleite. Não obstante, existem outros ainda mais profundos. Que feliz sorte seria a minha, se não fosse obrigada a descer para estes lugares!”

Ela desceu, no entanto, porque foi forçada a continuar o seu caminho. Tendo dado alguns passos, porém, parou aterrorizada e, suspirando, gritou: “Quê? Até religiosos nesta morada sombria! Bom Deus, como eles são atormentados! Ah, Senhor!” A santa não explica a natureza dos sofrimentos que tinha diante dos olhos, mas o horror que ela manifestava ao contemplá-los fazia com que ela suspirasse a cada passo que dava.

Daí ela passou a lugares menos obscuros. Eram as prisões das almas simples e de crianças nas quais a ignorância e a falta de razão extenuaram muitas faltas. Os seus tormentos pareciam à santa muito mais suportáveis que os das outras pessoas. Nada havia ali a não ser gelo e fogo. Ela notou que estas almas tinham consigo os seus anjos da guarda, que as fortificavam enormemente com a sua presença; mas também via demónios cujas formas pavorosas faziam aumentar os seus sofrimentos.

Avançando um pouco mais o passo, viu almas ainda mais desafortunadas, e ouviu-se ela gritar: “Ó, quão horrível é este lugar! É cheio de demónios horrendos e tormentos inacreditáveis! Quem, ó meu Senhor, são as vítimas destas cruéis torturas? Ai! Elas estão a ser perfuradas com espadas afiadas, elas estão a ser cortadas em pedaços.” Foi-lhe revelado, então, que aquelas eram as almas cuja conduta tinha sido contaminada pela hipocrisia.

Avançando um pouco, viu uma grande multidão de almas que eram feridas, por assim dizer, e esmagadas sob uma prensa; e entendeu que aquelas eram as almas que se tinham apegado à impaciência e à desobediência durante as suas vidas. Ao contemplá-las, os olhares, os suspiros e toda a atitude da santa exprimiam compaixão e terror.

Um momento depois a agitação aumentou, e a santa soltou um grito terrível. Era o cárcere dos mentirosos que se abria diante dela. Depois de o considerar atentamente, gritou bem alto: “Os mentirosos são confinados num lugar na vizinhança do Inferno, e os seus sofrimentos são muito grandes. Chumbo fundido é derramado dentro das suas bocas; eu vejo-os queimar e, ao mesmo tempo, tremer de frio.”

Ela foi então à prisão daquelas almas que tinham pecado por fraqueza, e ouviu-se ela exclamar: “Ai! Eu pensava que os encontraria entre aqueles que tinham pecado por ignorância, mas enganei-me; vós queimais com um fogo mais intenso.”

Mais adiante, viu almas que se tinham apegado demais aos bens deste mundo e tinham pecado por avareza. “Que cegueira”, disse ela, “ter buscado tão ardentemente uma fortuna perecível! Aqueles a quem as riquezas não puderam saciar o suficiente aqui são devorados com tormentos. Eles fundem-se como metal na fornalha ardente.”

Daí passou ao lugar onde as almas aprisionadas se tinham manchado com a impureza. Viu-as num cárcere tão sujo e pestilento que a visão lhe deu náuseas, e ela imediatamente deu as costas àquele espectáculo repugnante. Vendo os ambiciosos e os orgulhosos, disse: “Vede aqueles que quiseram brilhar diante dos homens! Agora estão condenados a viver nesta escuridão pavorosa.”

Foram-lhe mostradas, então, as almas que haviam sido culpadas de ingratidão para com Deus. Eram vítimas de tormentos indescritíveis e afogadas, por assim dizer, num lago de chumbo fundido, por ter feito secar, com a sua ingratidão, a fonte da piedade.

Muitas almas no Purgatório tinham consigo os seus anjos da guarda, que as fortificavam enormemente com a sua presença; mas havia também demónios cujas formas pavorosas faziam aumentar os seus sofrimentos.

Finalmente, num último cárcere, foram-lhe mostradas as almas que não se tinham dado a nenhum vício em particular, mas que, por falta da devida vigilância sobre si mesmas, cometeram todo o tipo de faltas triviais. A santa notou que estas almas tomavam parte nos castigos de todos os vícios, num grau moderado, porque as faltas que elas cometeram apenas de tempos em tempos tornaram-nas menos culpadas do que aqueles que as tinham cometido habitualmente.

Após esta última estação, a santa deixou o jardim, implorando a Deus que nunca mais a fizesse testemunha de um espectáculo tão desolador: ela sentia que não tinha forças para suportá-lo.

O êxtase continuou, e conversando com Jesus disse: “Dizei-me, Senhor, qual era o vosso desígnio em descobrir-me aquelas terríveis prisões, de que eu sabia tão pouco e agora compreendo ainda menos? Agora vejo: quisestes dar-me o conhecimento da vossa infinita santidade e fazer-me detestar cada vez mais a mínima mancha de pecado, tão abominável aos vossos olhos.” Pe. François Xavier Schouppe

Referências

1.         Recordemos o que ensina o Catecismo da Igreja Católica a respeito de revelações como estas: “No decurso dos séculos houve revelações denominadas ‘privadas’, e algumas delas têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé. A função delas não é ‘melhorar’ ou ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela com mais plenitude em determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja.” (§ 67)

2.         Importante frisar: o título desta matéria diz respeito aos pecados mortais devidamente confessados, dos quais a alma, antes de morrer, efectivamente se arrependeu. Caso contrário, a pena devida por eles não é o Purgatório, mas o Inferno.

3.         “A pena de perda consiste em estar privado, por um tempo, da visão de Deus, que é o supremo Bem, o fim beatífico para o qual foram feitas as nossas almas, assim como os nossos olhos são para a luz. É um desejo ardente (moral thirst, lit., ‘sede moral’) que atormenta a alma.” (“Purgatory...”, p. 24)