Testamento de um jovem

Morte, perdão, oração, guerra

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Ghasibé Kayrouz, jovem cristão libanês, de vinte e dois anos de idade, seminarista, morreu assassinado na noite de Natal entre Balbeck e Nabha, quando se dirigia para a sua aldeia natal, para passar as festas com a sua família. Antes de empreender viagem, teve o pressentimento de que o iam matar, e redigiu uma carta que, mais tarde, viria a ser encontrada em sua casa, em Jammour.
Eis algumas passagens deste emocionante texto de um jovem cristão que sente de perto a morte...

«Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.
Ao começar a escrever este testamento, é como se outra pessoa estivesse a ocupar o meu lugar. Todos, libaneses ou residentes no Líbano, estamos hoje em perigo. Eu sou um deles. Vejo-me assaltado e assassinado no caminho que deveria conduzir-me à minha aldeia de Nabha. E para o caso de este pressentimento chegar a tomar-se realidade, quero deixar algumas palavras à minha família, ao povo da minha aldeia, a todos os habitantes do meu país. A minha mãe e irmãs, digo com toda a certeza: não fiquem tristes ou, pelo menos, não chorem nem se lamentem demasiado. Esta ausência, por muito longa que seja, será sempre curta: voltaremos a encontrar-nos na morada eterna do céu. Não temam: a misericórdia de Deus voltará a reunir-nos.
Tenho apenas um pedido a fazer-vos: perdoai de todo o coração aos que me matarem. Peçam comigo que o meu sangue, embora seja o sangue de um pecador, sirva de fiança pelos pecados do Líbano. Que ele se misture com o sangue de todas as vítimas que já caíram, seja qual for o seu signo ou a sua confissão religiosa; ofereço-o como preço da paz, do amor e da compreensão, que desapareceram neste país e, inclusivamente, no mundo inteiro. Que a minha morte ensine aos homens a caridade; que Deus vos console; cuide de vocês, vos ajude na vida... Não tenham medo. A única coisa que me entristece é que vocês se entristeçam. Rezem, rezem, rezem e amem os vossos inimigos.
Ao meu país, digo o seguinte: os habitantes da mesma casa podem ter pareceres diferentes, mas não se odeiam; podem zangar-se uns com os outros, mas sem se converterem em adversários; podem discutir, mas não se matam. Lembrem-se dos dias antigos, de compreensão e de caridade; deixem que caiam por terra a cólera e os confrontos. Juntos bebemos, comemos e trabalhámos; juntos elevámos a nossa oração ao único Deus; juntos caminhámos para a morte. O meu pai tinha como sócio um muçulmano. Viveram como sócios durante setenta e cinco anos, sem nunca quebrar o seu contrato nem fazer contas.
Lembrem-se disto: há alturas em que é impossível pedir cem libras emprestadas ao próprio irmão e, então, bastar ir ter com algum homem da aldeia, a ele muçulmano, maronita, sunita ou druso, que vos tirará de apuros. Isto não é novidade para ninguém, todos nós o sabemos; no entanto, o pecado cegou-nos.
Cada qual tem de se voltar para a oração, segundo a sua própria fé e a sua própria consciência, para que Deus elimine a cólera e para que os projectos dos poderosos deste mundo sejam reduzidos a pó sobre o solo deste país, que não deve pagar com o seu sangue as suas maquinações.
No céu eu não terei repouso enquanto durar esta situação no Líbano!
Fazei o meu funeral como se fosse o dia da minha ordenação sacerdotal, que seja um dia de enterro ou de tristeza. No que se refere ao meu enterro, que o padre Butros celebre a missa sem assistência numerosa de outros sacerdotes e sem lho comunicar oficialmente. E se Abou-KhaIil pudesse fazer-me o féretro com as tábuas de algumas caixas velhas, sentir-me-ia muito contente. Nada de banquete de enterro. Que as pessoas me perdoem..., não quero tiros nem balas; com efeito, eu sou pó; mas a força de Deus tornar-me-á participante da vida divina…
As pessoas falarão, mas não lhes dêem importância alguma. Mesmo que alimentassem um pouco de piedade, não deixariam de se matar umas às outras e não permitiriam que os lobos fossem melhores do que nós. Como se enganam!».