O vilão que conquistou o Paraíso

 

O vilão que conquistou o Paraíso

 

Um vilão morreu, e com ele aconteceu o que nunca tinha acontecido antes e seguramente nunca voltará a acontecer: ninguém ficou a saber da sua morte, nem no Céu nem no inferno.

Como pôde acontecer isto, não sei.

Sei com segurança é que, no momento em que a alma dele se separou do corpo, não havia por ali nem anjos nem diabos para a recolher, e com isso o pobre homem ficou sem guia.

E também não havia ninguém com atenção posta nele, para o proibir de fazer o que bem entendesse com a sua alma, de modo que resolveu por sua própria conta e risco tomar o caminho do paraíso.

Não conhecia o caminho, mas viu de longe o arcanjo São Miguel a conduzir uma alma, e seguiu-o distraído, como quem não quer nada.

Chegou à porta do Céu juntamente com São Miguel. São Pedro, ouvindo que o chamavam, abriu a porta e deixou que entrassem o anjo e o convidado.

Quando viu do lado de fora o vilão sozinho, repreendeu-o:

— Aqui não se entra sem acompanhante, e além disso não queremos saber de vilões. Portanto, suma-se!

— Como ousais chamar-me vilão? Vilão sois vós, e grandíssimo vilão. Depois de negar três vezes a Nosso Senhor, ainda vos achais com direito de impedir a entrada de um cidadão honrado num lugar onde nem deveríeis estar?

Isso é conduta para um apóstolo? Como é que Deus foi consentir em entregar a guarda do paraíso a quem age desta maneira!

São Pedro não estava acostumado a ouvir sermões como este, e ficou tão desnorteado que correu para dentro, sem nada responder.

Encontrou São Tomé e contou-lhe a vergonha que acabara de passar.

— Deixe isso comigo — respondeu São Tomé. — Vou ver esse mendigo, e logo o despacharei.

Aproximou-se da porta e falou duramente ao vilão:

— Como ousas apresentar-te no lugar dos escolhidos, onde nunca entrou quem não fosse mártir ou confessor?

— Ah! É o senhor que vem me dizer isso? E o que está o senhor a fazer aí dentro?

Um homem sem fé, que não acreditou na Ressurreição do Senhor, duvidando da palavra de pessoas dignas de crédito.

E ainda precisou de tocar nas chagas do Ressuscitado, para poder acreditar. Se gente tão descrente como o senhor entra aqui, por que não posso entrar eu, que sempre tive fé?

São Tomé baixou a cabeça, envergonhado, e voltou aonde estava São Pedro. São Paulo, que passava por ali, ouviu as lamentações dos dois apóstolos e aproximou-se.

Fizeram-lhe um relato do acontecido, e ele disse aos dois apóstolos desapontados:

— É que não sabeis fazer as coisas direito. Vou já acertar o passo desse vilão.

Foi até à porta com passo decidido, pegou no vilão pelo braço e quis forçá-lo a sair aos empurrões.

O vilão resistiu e lançou em rosto a São Paulo:

— Não me estranha nem um pouco esta brutalidade num homem como o senhor, perseguidor de cristãos que nunca escondeu a sua tirania.

Para convertê-lo, foi necessário que Deus demonstrasse tudo o que sabe fazer, em matéria de milagres, e ainda assim o senhor foi um revoltoso, discutindo com um superior que era São Pedro.

Mesmo não sendo eu Santo Estêvão nem nenhum dos bons cristãos que o senhor torturou, deixe estar, que eu o conheço muito bem.

Apesar da segurança que São Paulo tinha inicialmente demonstrado, desconcertou-se tanto como os outros.

Achou melhor juntar-se a eles, e combinaram ir queixar-se a Deus.

Como chefe dos apóstolos, São Pedro tomou a palavra diante de Nosso Senhor, para pedir justiça.

Terminou dizendo que a insolência do vilão o deixara tão envergonhado, que não se atrevia a voltar ao seu posto enquanto o insolente se encontrasse ali.

— Eu mesmo irei falar com esse homem — disse Nosso Senhor.

Ao chegar diante da porta, Nosso Senhor perguntou ao vilão:

— Por que é que o senhor compareceu sem a companhia de um anjo? Aqui só se entra acompanhado, e além disso o senhor não tem o direito de insultar os meus apóstolos.

— Senhor, os vossos apóstolos quiseram afastar-me, e eu acho que tenho tanto direito de entrar como eles, pois não vos reneguei, não duvidei da vossa Ressurreição nem apedrejei ninguém. Sei que ninguém é recebido aqui sem passar por um julgamento, e por isso quero me submeter ao vosso.

  “Vós fizestes-me nascer na pobreza, suportei as minhas penas sem me queixar e trabalhei toda a minha vida.

 “Ensinaram-me a crer no vosso Evangelho, e eu acreditei. Fiz tudo o que me disseram que devia fazer.

 “Dei esmolas aos que eram mais pobres do que eu e reparti o meu pão com eles.

 “Confessei-me e comunguei quando o vigário mandou, e ele disse-me que quem vive assim ganha o Céu.

 “Por fim fizeste-me entrar para ser interrogado, e aqui vou ficar, pois vós mesmo elogiastes no Evangelho uma que “escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”, e não podeis voltar a vossa palavra atrás.

— Muito bem, podes ficar! Sem dúvida ganhaste o Céu pelos teus discursos, que enunciaste de modo convincente. Esta é a vantagem de ter frequentado boa escola.