Como fazer para viver na presenša de Deus

Como fazer para viver na presença de Deus?

 

Faz silêncio e ouve a orientação que vem de Deus!

 

Este é o ponto mais importante da vida espiritual. Deus habita em nós desde o baptismo (1Cor 3,15), desde que estejamos na graça de Deus; mas, infelizmente, esquecemo-nos disto com muita facilidade. São Paulo disse aos filósofos gregos em Atenas, no areópago: “em Deus nos existimos, nos movemos e somos” (Act 17,28). Mas esquecemos.

 

Assim como o pássaro vive no ar, e nele voa e se desloca, assim nós fomos feitos para “viver mergulhados em Deus”. Sem o ar que o envolve o pássaro não consegue voar; no vácuo não teria a sustentação da resistência do ar e cairia; de nada lhe valeriam as asas.

 

Nós também, sem Deus não temos sustentação para viver em equilíbrio e paz, caímos. O mesmo vale para o peixe; ele vive na água; fora dela ele não se pode mover, respirar e morre. É isto que acontece connosco quando nos afastamos da Presença de Deus. Como disse São Tomás, nos “aproximamos do nada”.

 

Deus está em todo o lugar, sempre, pois é Omnipresente. Então, estejas tu onde estiveres, fazendo qualquer actividade, boa ou má, Deus aí está. Não há como viver longe Dele. Precisamos de meditar profundamente, o que diz o salmista:

“Senhor, Vós me perscrutais e me conheceis, sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais os meus pensamentos. Quando ando e quando repouso, Vós me vedes, observais todos os meus passos. A palavra ainda me não chegou à língua, e já, Senhor, a conheceis toda. Vós me cercais por trás e pela frente, e estendeis sobre mim a vossa mão. Conhecimento assim maravilhoso me ultrapassa, ele é tão sublime que não posso atingi-lo. Para onde irei, longe do Vosso Espírito? Para onde fugir, apartado do Vosso olhar? Se subir até aos céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também. Se tomar as asas da aurora, se me fixar nos confins do mar, é ainda a Vossa mão que lá me levará, e a Vossa destra que me sustentará. Se eu dissesse: pelo menos as trevas me ocultarão, e a noite, como se fora luz, me há-de envolver. As próprias trevas não são escuras para vós, a noite Vos é transparente como o dia e a escuridão, clara como a luz.” (Sl 138)

 

Deus está em nós, e junto de nós, mas às vezes somos cegos a esta realidade. Se um cego estiver na presença do rei, mas não souber disso, pode comportar-se mal, distraído; mas se sabe que o rei está presente, então muda de atitude. Nós agimos muitas vezes assim como cegos na presença do Rei divino, sem saber que Ele está ali; então, comportamo-nos mal, agimos mal, rezamos mal; somos distraídos na Presença do Rei.

 

Quando vamos rezar, então, a primeira necessidade é “colocar-se na presença de Deus”; tomar consciência de que Ele está ali, vendo-me, ouvindo-me. Então podemos ter uma devoção profunda, falando com Ele no silencio da alma, familiarmente, como um filho fala com o seu querido pai.

 

Quando Deus chamou Abraão para uma Aliança especial, da qual nasceria o povo de Deus, e dele o Salvador, fez duas exigências fundamentais a Abraão: “Anda em minha presença e sê perfeito” (Gn 17,1). “Anda na minha presença”: Abraão saiu do paganismo da Babilónia, para dele nascer o povo de Deus; precisava de ser guiado pela mão por Deus. Então, Deus exige, “anda na minha presença”; “sem isto não vais ouvir a minha voz, não vais saber o caminho da Terra Prometida que Eu te quero dar, não vais ter luz no teu caminho, e nem força para caminhar”. Então, por favor, “anda na minha presença”. E Abraão soube obedecer a esta ordem; por isso levou a sua família até à Palestina e fez Aliança com Deus. Tinha familiaridade com Deus, conversava com Deus como um Amigo.

 

E Deus exigiu também, “se perfeito”. Deus é santo, três vezes santo, disse Paulo VI. E não convive com o pecado. Para que Abraão andasse sempre na sua presença, precisava de ser integro; não se deixar corromper pelos ídolos e fascinações do pecado. E Abraão foi integro; foi obediente a Deus a tal ponto de estar disposto a imolar Isaac, se Deus de facto quisesse.

 

Nós também temos de viver assim: na presença de Deus, lutando para ser íntegro. Então, permaneceremos em Deus; e Ele será a nossa luz na caminhada, a nossa força, a nossa esperança. Na sua luz teremos resposta às nossas dúvidas, paz no meio dos conflitos, tentações, tribulações. Teremos harmonia e verdade, porque a luz eterna vai connosco. Dele vêm as nossas inspirações, com Ele todo o medo e insegurança serão banidos.

 

Por isso, cultivar essa amizade e intimidade com Deus na oração, na meditação e na contemplação, será sempre a melhor garantia de colher bons frutos na acção familiar, profissional e, especialmente, pastoral e missionária. Aqueles que se atiram a um activismo frenético na pastoral, sem vida interior com Deus, cansam-se, desiludem-se, desanimam e largam tudo. Porque agem com as próprias forças e não com as de Deus. A Igreja perdeu muitos por causa disto.

 

Se tu estás perdido, se já não sabes o que fazer na vida, é porque perdeste essa Luz divina que reside no teu ser. Faz silêncio e ouve a orientação que vem de lá. Não deixes que ela se apague em ti por causa do pecado. O pecado fere a Majestade divina e a sua justiça. A força para não ofender a Deus está na própria consciência da Sua Presença. Certos dela, teremos constrangimento de pecar.

 

Sem esta Presença divina, estará excluindo-te de ti mesmo; pois não conhecerás a tua identidade. O querido papa São João Paulo II, disse na encíclica Redemptor Hominis, que “sem Jesus Cristo, o homem permanece para si mesmo um desconhecido, um enigma indecifrável, um mistério insondável”. Está perdido!

 

Deus esconde-se na nossa alma, porque quer ser procurado, amado; quer que tenhamos sede Dele. O autor das Crónicas disse: “O Senhor está convosco assim como vós estais com Ele. Se vós O procurais, Ele se manifestará a vós, mas se vós O abandonais, ele vos abandonará” (2 Cr 15,2). Jesus mandou: “Permanecei em Mim e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis dar fruto, se não permanecerdes em Mim… sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).

 

Todos os nossos pensamentos, palavras, actos e decisões, precisam de ser realizados na Presença de Deus, para que sejam acertados. Não vemos Deus, mas Ele vê-nos. A Esposa do Cântico dos Cânticos, disse: “Ele está escondido, não o posso ver, mas Ele vê-me, Ele está a ver-me…” De modo muito especial isto se aplica quando estamos diante de Jesus Sacramentado. Não O vemos no Sacrário, mas Ele vê-nos e ouve-nos.

 

Na Presença de Deus temos então, um respeito profundo com a Sua divina Majestade. E precisamos de pedir como o Salmista: “Nunca me lances longe da Tua Presença, ó meu Deus, não tires de mim o Teu Santo Espírito” (Sl 50,13).