Viver em Família

Viver em Família 

 

Coerência de vida, caminho de santidade. Reflexão para o Tempo do Natal

José pousou no banco de carpinteiro o tampo da mesa que estavam a construir e aproveitou a pequena pausa para esticar um pouco os braços e costas doridas. Do outro lado, Jesus encaixava uma das pernas com a facilidade que dá a experiência. José olhou para o filho com um íntimo orgulho. Jesus, aos seus dezasseis anos era já um hábil carpinteiro. O trabalho de entalhe era o preferido dele: unia duas peças de madeira com tal mestria que era difícil descobrir a união sem uma observação muito atenta.

Um pouco mais atrás, o sobrinho mais velho Tiago, com um ar muito compenetrado, trazia as ferramentas que estavam a ser precisas e arrumava as que não estavam. No dia seguinte faria doze anos, o que era uma data importante, e tinha de ser festejada como convinha.

Com o falecimento súbito de Cléofas, o irmão de José, aparecera em Nazaré a viúva dele, também chamada Maria, – "a-outra-Maria" começaram-na a chamar por brincadeira, e tinha ficado como alcunha – e veio com uma escadinha de seis filhos. Não tendo mais família próxima, foi procurar ajuda a casa de José, que conseguiu fazer um anexo à pequenina casa, que ocupava com Maria e Jesus, para poder acomodar a cunhada e os sobrinhos. O trabalho de carpinteiro que dava sem problemas para três passou a ter de manter dez bocas.

Ao outro lado do pátio onde José tinha a oficina, podia-se ouvir a animada conversa mantida entre a sua esposa Maria e a outra Maria, que parecia nunca esgotar o tema de conversa. Tinha chegado de fazer umas compras havia uns momentos e devia trazer notícias frescas da praça. Jesus, sem deixar o trabalho, fazia esforços para conter o riso ao ouvir as frustradas tentativas da sua mãe para intervir na conversa.

A irmãzinha de Tiago saiu de casa com um cesto quase tão grande como ela com roupa para estender. Tiago acabou de pousar as ferramentas no lugar devido e correu a ajudá-la.

As sombras alongavam-se e só faltava ajustar a última perna da mesa. José aplicou a cola, encaixou a perna com cuidado e bateu suavem/ com o martelo na extremidade. Assim estava terminada a encomenda de mobília feita por um casal que se acabava de instalar em Nazaré. Em breve teriam um filho – e viriam encomendar o berço, pensou José, com espírito prático. Como Jesus não tivera berço quando nasceu, José dava sempre prioridade a esse trabalho.

Maria, a mãe de Jesus, saiu de casa com outro cesto de roupa. Aproximou-se da oficina e disse: - Temos a comida quase pronta; ide acabando o que estais a fazer.

O aroma que vinha da cozinha confirmava isso e fazia lembrar aos dois carpinteiros que levavam umas boas horas de trabalho desde a última refeição consistente.

- Temos uma porta a roçar no chão, era preciso dar um jeito – acrescentou Maria.

- Deve ser uma dobradiça que cedeu – respondeu Jesus; olhou de relanço para a cara fatigada do pai – Eu vou já ver isso, immi.

Deu um último retoque à perna da mesa. Levantou os olhos para José e disse

- Vamos pôr a mesa de pé, abbá?

Podia acrescentar, "então acordei".

Este episódio poderia ter acontecido na casa de Nazaré onde vivia a Sagrada Família. Não é nenhuma verdade de fé, nem sequer tem preocupação de rigor histórico, mas é um exercício de imaginação na sua aplicação mais nobre, que é ver o rosto humano de Cristo.

O facto é que Deus escolheu, para entrar na nossa história, o meio familiar. Durante trinta anos – em noventa por cento da sua vida - Ele viveu no seio de uma família como qualquer outra, «Não é Ele o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão todas entre nós?» (Mt 13, 55-56) diziam estranhados os conterrâneos de Jesus. É o sinal claro da simplicidade da sua vida durante aquele tempo todo. Ninguém mais do que Maria e José sabiam que estavam a brincar, falar ou trabalhar com o Filho eterno de Deus, o Verbo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Vejamos como é sagrada a família que o próprio Deus é uma família, e o Amor dentro dessa família é tal que é, Ele próprio uma Pessoa divina, o Espírito Santo.

«Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste.» (Mt, 5, 48) O ser humano não é um indivíduo – O Senhor Deus disse: «Não ê conveniente que o homem esteja só...» (Gen 2, 18) - mas uma família (como Deus). A sociedade moderna prefere tratar com o indivíduo, solitário, indefeso e nu, fácil de dominar e manipular, e não com a envolvente familiar que o defende e lhe dá referências e valores para defender.

De facto a família é a fundamental referência humana, o verdadeiro valor, porque está fundada na única realidade absoluta que é o Amor: Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele (1 Jo4,16).

Mas a família é uma coisa concreta: a minha família, uma minúscula sociedade – a célula originária da sociedade humana (Compêndio do CIC, 457) – e como tal, marido e mulher, filhos, e outros parentes que, a constituam têm de "trabalhar para o bem comum", que é a essência de uma sociedade saudável. Esse bem comum começa pela própria manutenção da família, ultrapassando as pequenas diferenças e atritos, inevitáveis no convívio prolongado. Isso começa por esquecer 1 pouco o n/ "eu", tão pesado às vezes, e procurar fazer felizes os outros.

Como tudo na vida cristã, exige esforço. Os filhos não são adjudicados à escola que faça deles o que quer que seja, mas a educação é uma responsabilidade grave dos pais, e a educação não é saber o teorema de Tales ou ler os Lusíadas... antes fosse, seria muito mais fácil.

A educação religiosa não é um trabalho de três quartos de hora semanais na Catequese, são os seis dias e vinte e três horas e um quarto durante os quais o filho tem os pais por referência: «Melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem ao mar, do que escandalizar um só destes pequeninos» (Lc 17, 2). Mesmo nas borrascas da adolescência, os pais são o porto de abrigo, se se empenharem um pouco. Não queiramos ouvir naquele dia: «Porque foste preguiçoso, porque foste comodista, porque não tiveste tempo, porque foste cobarde... pedi-te conselho e tu não me aconselhaste, pedi-te exemplo e tu não mo deste, pedi, mesmo, que me ralhasses com razão… e tu não o fizeste!».

Coerência de vida:

Somos cristãos vinte e quatro horas por dia. Somos cristãos na empresa onde uma empregada fica grávida – vou despedi-la? (o problema é dela...).

Somos cristãos na vida política onde querem aprovar uma lei do aborto ou do "casamento" homossexual – vou deixar aprovar sem reagir? (não è nada comigo...).

Sou cristão no meu ambiente social – vou abdicar de intervir nos conselhos de pais da escola? (isso é com os professores...).

Quando estas perguntas surjam, podemos recuar àquela casinha de Nazaré, e imaginar a vida diária que lá decorreria. A nossa oração neste tempo de Natal poderia consistir em pedir à nossa imaginação que nos levasse a dar uma volta com a Sagrada Família. Ir às compras com Maria, ajudar a José a terminar uma mobília, ir pedir a Maria para fazer uns bolinhos daqueles tão bons que ela sabe fazer para a festa de anos do meu filho, ir com Jesus tirar as medidas para as traves de uma casa e, por fim, jantar, num descanso merecido, com Jesus, Maria e José, contar-lhes as peripécias do meu dia, rir com eles das anedotas divertidas que sempre acontecem, dizer-lhes, também, os momentos menos divertidos, que também os há sempre, porque saberão dar-me umas palavras de consolação.

A seguir, abrirei os olhos e verei a minha família. Sem se deixarem notar, Jesus, Maria e José estão sentados à mesma mesa. Vou ser educado com eles.

Propósito______________________

Fazer todos os dias um pequeno serviço a cada um dos membros da minha família: por exemplo, arrumar as cadeiras ao levantar-me da mesa, ajudar a fazer os deveres ao meu irmão pequeno, ter um café quente, ou um refresco (conforme gostar) quando o marido chega do trabalho, «...quem vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.»... (Mc 33,41)

 

Oração

_____________João Paulo II - Ângelus de 28/12/1980.

Oh Deus, de quem procede toda a paternidade no céu e na terra,

Pai, que és Amor e Vida, faz que cada família humana sobre a terra se converta, por meio de teu Filho, Jesus Cristo, "nascido de Mulher"', e mediante o Espírito Santo, fonte de caridade divina, em verdadeiro santuário da vida e do amor para as gerações que sempre renovam.

Faz que a tua graça guie os pensamentos e as obras dos esposos para o bem das suas famílias e de todas as famílias do mundo.

Faz que as jovens gerações encontrem na família um forte apoio para a sua humanidade e o seu crescimento na verdade e no amor.

Faz que o amor reafirmado pela graça do sacramento do matrimónio, se revele mais forte que qualquer crise, pelas quais, às vezes, passam as nossas famílias.

Faz, finalmente, te pedimos por intercessão da Sagrada Família de Nazaré, que a Igreja em todas as nações da terra possa cumprir frutuosamente a sua missão na família e por meio da família. Tu, que és a Vida, a Verdade e o Amor, na unidade do Filho e do Espírito Santo. Ámen