São Bernardo fez o demónio servir de roda
São Bernardo fez o demónio servir de roda
São Bernardo voltou certa vez à sua aldeia natal – Fontaine, perto de Dijon – para encontrar junto à lagoa de sua infância toda a calma e toda a força de que necessitava.
Com efeito, através de sua eloquência e da força de convicção de sua fé, ele deveria arrastar para a segunda Cruzada tudo quanto na Europa havia de melhor na nobreza e nas classes populares de boa vontade.
Por isso ele precisava de um momento de contemplação e repouso em sua terra natal.
Tanto mais quanto havia tempo que inquietações e dúvidas o assaltavam e atormentavam, dando a impressão de que uma diabólica mão pesava-lhe sobre as costas, queimando-a.
Uma voz lhe murmurava palavras desencorajadoras e anunciava que seu projeto iria fracassar.
Imagens ora tentadoras, ora aterrorizantes desfilavam diante de seus olhos.
São Bernardo lutava contra o demónio com todo o poder da oração, sendo nisso ajudado pela tranquilizadora paisagem de seus jovens anos.
A serenidade voltou e ele decidiu se reunir com o já numeroso magote de companheiros de fé e de combate, com os quis pegou a estrada de Vézélay.
Os caminhos naqueles tempos eram ruins e difíceis, as viagens lentas e penosas, o perigo acompanhando os viajantes como se fosse parte de sua própria bagagem.
Entretanto, incidente algum de importância perturbou o avanço do comboio que se aproximava do ponto de chegada.
Mas, uma tempestade de uma violência extraordinária pegou-os uma noite num vale muito estreito.
Um ruído infernal descia como que rolando de pedra em pedra, torrentes de lama ameaçavam a todo o momento levar as carruagens, os bois e os cavalos.
Os viajantes encontraram refúgio numa gruta onde acabaram cedendo ao sono.
São Bernardo ficou só sob a tempestade a fim de tranquilizar os animais.
O santo tentou desentalar uma das charretes que estava atolada na lama, mas enquanto o fazia uma de suas rodas quebrou completamente.
Um riso estridente se fez ouvir nas suas orelhas e ele percebeu nas costas o sopro ardente que ele conhecia bem.
O diabo não abandonava a sua presa e naquela noite mostrava-se mais empedernido.
São Bernardo fez então lentamente o Sinal da Cruz e com voz forte deu ordem ao demónio para ocupar o lugar da roda quebrada.
Uivando de dor e de raiva, o espírito mau não pôde resistir à vontade daquele que agora era seu senhor.
Mordendo a própria cauda, ele assumiu a forma circular e tirou com suas forças a charrete entalada.
O amanhecer despontou calmo e luminoso sobre o comboio já disposto em ordem e todos retomaram a estrada.
Apenas um gemido melancólico proveniente de uma roda ritmava a marcha: esta foi a única lembrança dos furores da noite.
No dia seguinte, São Bernardo atingiu o alto da colina de Vézélay e ali pregou a Cruzada com o brilho que a História registou.