A raposa e o corvo

A raposa e o corvo

 Um dia um corvo achou um grande pedaço de queijo e pousou-o num galho para o comer tranquilamente, sem ser molestado.
Mas aconteceu de uma raposa passar por baixo da árvore e quando viu o queijo, começou a pensar no modo de o roubar.
E foi assim que disse:
— Belo Corvo, há muito que ouço falar de vós, da vossa nobreza e da vossa galhardia. Embora eu vos tenha procurado por toda a parte, não consegui encontrar-vos antes.
Mas, agora que vos vejo, acredito que sedes muito superior a tudo quanto me diziam. E para que vejais que não procuro bajular-vos, não somente falarei dos vossos bons dons, mas também dos defeitos que vos atribuem.
Todos dizem que, sendo preta a cor da vossa plumagem, olhos, patas e garras, e sendo que o preto não é tão belo como as outras cores, o facto de ser assim preto vos torna muito feio.
Mas eles não percebem o erro, pois embora as vossas plumas sejam pretas, elas têm um tom azulado, como as do pavão, que é a mais bela das aves.
E posto que os olhos foram feitos para ver, enxerga-se melhor quando são pretos e por isso todos louvam os olhos da gazela, que os têm mais escuros que qualquer animal.
Além do mais, o vosso bico e as vossas garras são mais fortes que as de qualquer outra ave do vosso tamanho.
Também vos quero dizer que voais com tanta velocidade que podeis ir contra o vento, ainda quando é muito forte, coisa que muitas outras aves não podem fazer tão facilmente como vós.
Por tudo isto acredito que, Deus que tudo faz bem, não teria consentido que vós, tão perfeito em tudo, não pudesses cantar melhor do que o resto das aves.
E porque Deus me concedeu a dita de vos ver e de comprovar que sedes mais belo do que dizem, eu me sentiria muito ditosa ouvindo o vosso canto.
Embora a intenção da raposa fosse enganar o corvo, sempre disse verdades pela metade. Mas uma enganosa meia-verdade produz os piores males e os maiores prejuízos.
E quando o corvo sentindo-se tão bajulado pela raposa e achando que era verdade tudo o que dizia, supos que não estava sendo logrado mas que era sua amiga, não suspeitou que falava só para lhe tirar o queijo.
Ludibriado por palavras e afagos, o corvo abriu o bico para cantar e agradar à raposa. Quando isto fez, o queijo caiu por terra.
Pegou-o logo a raposa e fugiu com ele.
Assim o corvo ficou iludido pelas bajulações da sua falsa amiga, que o fez acreditar que era mais belo e mais perfeito do que realmente era.
 Quem acha em ti qualidades que não tens,
sempre procura tirar-te alguns bens.