O Capítulo dos Animais
 

O Capítulo dos Animais

 
O leão condena o burro por uma falta mínima.
 

Certa vez o leão ouviu que os frades faziam um Capítulo no qual todos se acusavam culpados dos pecados que tinham cometido e se submetiam a uma pena.


Disse então: — “Ora, se os frades fazem um Capítulo de todos diante do seu superior, eu que sou o maior de todos os animais da terra e o senhor de todos eles, deverei ser pior?”


E logo mandou ordenar o Capítulo de todos os animais, para que comparecessem diante dele.


Uma vez todos reunidos, ele ocupou o trono e, quando estava bem sentado, ordenou que todos se sentassem em volta dele.


E desde o trono, disse o leão: — “Eu não quero ser pior do que os outros nisto. Quero que façamos um Capítulo como fazem os frades, e que nele se confesse todo o pecado e mal feito; e, sendo eu o maior, quero saber de tudo. Eu ouvi dizer que muitos males foram feitos por vós. Eu direi de quem é a vez de se acusar. Porém, quero que cada um confesse o seu pecado. Vinde, um por um, todos a mim, vos acusando como pecadores daquilo que tendes feito”.


Ordenou então ao burro que fosse o primeiro a se penitenciar. O burro foi até ao leão, e ajoelhando-se, disse:- “Misericórdia!”


O leão falou: — “O que fizeste? Diz já o que fizeste”.


E o burro falou: — “Misericórdia, eu pertenço a um camponês que às vezes me carrega com um monte de palha e me leva até à cidade para a vender. E aconteceu que certa vez, enquanto andava, engoli um bocado de palha sem que o meu patrão percebesse. E assim fiz mais de uma vez”.


Então, disse o leão:  — “Oh, ladrão! Ladrão, traidor e malvado; não percebes todo o mal que fizeste? Quando é que poderás restituir o valor daquilo que roubaste e comeste?”


E ordenou que este burro fosse preso e recebesse grande número de chibatadas. E assim foi feito.


Depois dele compareceu a cabra, que do mesmo modo se ajoelhou pedindo misericórdia.


Disse o leão:  — “O que é que tu fizeste? Oh, conta já o teu pecado”.


A cabra respondeu: — “Meu Senhor, eu me acuso da minha culpa: certa vez, para fazer estrago, passei perto da horta de uma mulher, precisamente de uma viúva, que tinha muitas ervinhas odoríferas, salsa, manjerona e tomilho; e causei dano às couves e a outras mudas, comendo as suas pontas mais tenras.


“E após fazer dano a esta, também fiz mal a muitas hortas; e por vezes fiz dano de modo a não deixar nada que fosse verde”.


Disse então o leão:  — “Oh! Acabo de encontrar duas consciências muito diversas. Uma é subtil, até demais, e a outra é grossona, como a daquele ladrão do burro.


“Mas tu percebias o mal em comer essas ervinhas? Pois bem, vai em paz, vai não tenhas problema de consciência. Oh! Vai pura como eu. Não é necessário confessar esse pecado, é costume das cabras fazerem coisas dessas. Tens uma grande desculpa, porque foste obrigada a fazer isso. Vai, vai, que eu te absolvo e não penses mais nisso”.


Depois da cabra apareceu a raposa, que se pôs de joelhos diante do leão.


Disse o leão: — “Ora, confessa os teus pecados. O que fizeste?

 


A raposa disse:  — “Misericórdia, eu recito as minhas culpas: matei muitas galinhas e comi-as. E às vezes entrei no galinheiro onde dormiam, e vendo que não poderia chegar até elas, fingi que a minha cauda era uma vara e que eu ia subir. E quando elas acreditaram, logo pularam para o chão; e então corri atrás delas e matei todas as que pude apanhar; comi todas as que conseguia e as outras deixava-as mortas; algumas vezes levei comigo mais de uma”.


Disse o leão:  — “Oh, como tendes uma consciência delicada! Em boa hora vai embora, vai! Em ti é natural tudo isso que fazes e eu não te darei penitência alguma, e nada te imputo como pecado. Também te digo que continues a agir corajosamente como fazes e não te acuses senão das galinhas que ficaram vivas”.


Partiu a raposa e apareceu o lobo e disse: - “Meu Senhor, uma vez eu fui ao curral das ovelhas para ver como estava feito. Vós sabeis que a cerca em volta é alta, e eu comecei a pensar por onde poderia entrar facilmente. E assim que achei, procurei uma madeira que acho que era pesada como uma ovelha, para entrar e sair por cima dela. E assim fiz para não ser apanhado pelos cães. Entrei sorrateiramente e matei mais ovelhas do que tinha necessidade, e voltei carregando só uma”.


Disse o leão:  — “Oh, mais uma consciência delicada! Sabes o que te respondo? Não sintas dor de consciência por essas coisas. Doravante vai e faz galhardamente o que fazes sem te preocupar comigo”.


E logo que o lobo partiu, entrou a ovelha, com a cabeça baixa, dizendo:  — “Be, be.”


Disse o leão:— “O que fizeste, mulher hipócrita?”


Ela respondeu:
— “Misericórdia, certas vezes em que passei pelas trilhas em cujo lado está semeado o capim, eu subi sobre um montículo e, vendo aquelas ervinhas verdes e tenras, não comi tudo, mas apenas as partes de cima, as mais tenras”.
Então disse o leão: — “Oh maldita ladra, ladra traidora, foi assim que fizeste tanta maldade! E andas por ali dizendo ‘be, be’ enquanto roubas pela estrada! Oh, maldita ladra, quanto mal fizeste! Chega; dai-lhe muitas vergastadas; e dai-lhe tantas até surrá-la toda inteira, e fazei de modo que ela fique três dias sem comer coisa alguma”.

Que lição se tira deste conto! Entendestes?


O corvo não fura o olho de outro corvo. Quando um bicho ruim, como o lobo ou a raposa, faz uma coisa, o ruim encobre para que não se veja.


Mas, se for a ovelhinha, ou o burro, quer dizer a viúva, a criança ou um coitadinho que diz ou faz alguma coisa pequena, o ruim pede: mata, mata. O lobo não come outro lobo, mas come a carne dos outros animais.


Oh, tu que governas, não punas com demasia o burro e a ovelha por pequenas coisas e não deixes de condenar o lobo e a raposa pelos seus grandes crimes!


O que deves fazer?
Escolhe a punição com prudência, discernindo a falta de uns e o crime dos outros.


(Autor: São Bernardino de Siena, “Apologhi e Novellette”,
Intratext).