O ENLEVO DA EUCARISTIA – D. José Policarpo, em Fátima

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«Queridos peregrinos, nesta missa de vigília, em Ano da Eucaristia, numa profunda união à memória do Santo Padre João Paulo II, que o proclamou, e do actual Papa, Sua Santidade Bento XVI, somos todos convidados, com fé, com o coração aberto ao Mistério, a meditar no maior dom que Jesus deixou à Sua Igreja: a Eucaristia.
A espiritualidade eucarística faz parte, desde o início, da mensagem de Fátima, e da espiritualidade de Fátima. Mesmo ainda antes das aparições de Nossa Senhora, na aparição do Anjo aos Três Pastorinhos, na Loca do Cabeço, o Anjo revelou-Ihes a Eucaristia, e a importância de a Adorar.
E, conhecemos, pelas Memórias da Irmã Lúcia, o amor que os Três Pastorinhos, mas sobretudo o Francisco, tinham à Eucaristia. Como ele se refugiava, sempre que podia, em silêncio, para adorar Aquele a quem aprendeu a chamar o Jesus Escondido.
E, na pedagogia deste Santuário, sempre a Eucaristia. A Eucaristia-celebração, que se procura que seja cada vez mais solenemente vivida, mas também a Eucaristia-adoração, longa, por vezes sacrificada; sempre fizeram parte da pedagogia e da generosidade dos peregrinos, neste Santuário.
"Fica connosco Senhor!" - Foi o pedido, que ouvimos agora no Evangelho, que aqueles dois discípulos fizeram ao Ressuscitado, que ainda não conheciam, e Ele ficou.
"Fica connosco Senhor!" - Foi o último grito de um grande crente, João Paulo II, dirigido a Cristo Ressuscitado, Senhor da Igreja, neste ano que ele quis todo consagrado à Eucaristia. "Fica connosco Senhor!", e Ele ficou.

Maria - Mulher Eucarística
E nessa Carta Apostólica, já assumida pelo novo Papa, João Paulo II, chama a Nossa Senhora, a Maria, a "Mulher Eucarística". É uma expressão que pode surpreender, mas Ela é verdadeiramente o ícone da Igreja, e portanto a Igreja tem que poder ler no coração dessa Mulher Imaculada o segredo do Mistério mais precioso que Lhe foi legado pelos seus Senhores? "Mulher Eucarística" significa que nós podemos descobrir e contemplar em Maria aquelas atitudes fundamentais que a Igreja deve ter para viver de uma maneira cada vez mais santa, e descobrir de uma maneira cada vez mais profunda este dom precioso da Eucaristia.
Façamos isto, esta noite, contemplando Maria, e descobrindo no Seu olhar e no Seu Coração, essa atitude eucarística. Antes de mais, no Seu Coração Imaculado. A pureza sem mácula do coração da Virgem Maria é a Sua primeira atitude eucarística.
Já no Antigo Testamento era exigido que o cordeiro oferecido em sacrifico para glória de Deus fosse um cordeiro perfeito, sem defeito e sem mancha, e aos sacerdotes que o ofereciam era exigida uma purificação prévia, purificação dos seus pecados e dos pecados do povo, para que aquele sacrifício, que era apenas o símbolo anunciador do verdadeiro cordeiro pascal, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, fosse o mais puro possível, o mais santo, porque era um sacrifício oferecido ao Deus três vezes santo.
Essa pureza total do cordeiro e do oferente só é realizada de forma perfeita e definitiva em Nosso Senhor Jesus Cristo. É por isso que Ele pode oferecer-se e pode oferecer-nos a Deus Pai, num acto humano que tem a pureza e profundidade do amor trinitário das pessoas divinas.

Eucaristia – Exigência de conversão
A Eucaristia é, na vida de Igreja e na nossa vida de cristãos, a maior motivação e a maior exigência de conversão e de purificação do nosso coração. É por isso que ela anda sempre aliada ao Sacramento da Reconciliação. Nós chamamos-lhe o Santíssimo Sacramento.
Abeirar-se da Eucaristia é, de certo modo, abeirar-se do trono de Deus, através de Cristo Ressuscitado. Como poderíamos fazê-lo sem por todo o empenho do nosso desejo de conversão na purificação do nosso coração?
Um dia no Céu perceberemos como a Eucaristia foi o sacramento que construiu progressivamente em nós esse coração novo, esse desejo de mudança de vida, esse desejo de não manchar com os nossos sentimentos e com as nossas impurezas a Santíssima Glória de Deus.
O Coração Imaculado de Maria pode oferecer-se completamente, aliás só um coração imaculado é capaz de uma oferta total - "Pai faça-se a Tua vontade. Eis a serva do Senhor".
Enquanto estamos manchados pelo pecado, vamos tendo desejos de dom, vamos fazendo gestos e actos de oferta, vamos querendo disponibilizar-nos para a glória de Deus e para a construção do Seu Reino; mas, enquanto o pecado nos dividir, nunca seremos capazes desta disponibilidade sem limites, dessa oferta sem condições, desse dom sem reservas.
Maria, na sua disponibilidade convida-nos a progredirmos, a aprender progressivamente essa atitude do dom, essa graça da disponibilidade, essa ousadia da oferta, para a glória de Deus e para a construção do Seu Reino.
Maria. Mulher Eucarística, foi a primeira q fez a experiência silenciosa da intimidade com o Seu Senhor. Indescritível, eu diria mesmo inimaginável; passou pelo Seu amor materno, que deu forma a uma grande crente, e que se manifestou, já, na antecipação na glória eterna.
O que seria aquela intimidade, deste Coração Imaculado de mulher? Com um filho imaculado, porque divino. Longas horas silenciosas, algumas solicitudes, guardava tudo no Seu coração. Aprendeu a amar, aprendeu a alargar o horizonte do amor, percebeu uma coisa, que nós levamos a vida toda a tentar perceber: que é possível amar a Deus amando os homens, que é possível reconhecer o rosto de Deus no rosto dos homens. É na eucaristia que podemos aprender isso.
João Paulo II fala de um enlevo amoroso que a Eucaristia gera naqueles que longamente, silenciosamente, tomam a sério essa prece -"Fica connosco Senhor"; para quem a Eucaristia é esse convívio sagrado, essa intimidade desejada e construída. É talvez onde a Igreja se aproxima mais da atitude contemplativa de Maria quando trouxe Jesus no Seu seio; quando o viu nascer em Belém; quando fugiu com Ele para o Egipto; quando O acompanhou ao templo de Jerusalém; quando sofreu com Ele e se alegrou com Ele nas vicissitudes da Sua missão; quando, no Calvário, O acolheu amorosamente, como que oferecendo-O de novo, aceitando a Sua morte, e oferecendo-O pela salvação do mundo. Nunca, como na Eucaristia, a Igreja se aproxima dessa atitude adorante do Coração Imaculado de Maria.

Eucaristia – Desinquietação Missionária
"Fazei tudo o que ele vos disser". Ela guardava tudo no Seu Coração, disposta a tudo, a partir e a regressar. A Eucaristia é, para a Igreja toda e para cada Cristão, o ponto de partida de uma desinquietaçâo missionária. É aí que aprendemos a urgência do Reino, é aí que o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, se torna qualquer coisa que queima o Coração, e que não permite ficarmos parados.
É a partir da Eucaristia que partimos, partimos a anunciar, partimos a viver no realismo do Reino, partimos a ser sementes vivas de um mundo novo.
Cheia de Graça. Será maior graça para nós do que sermos associados a Cristo Pascal, Sumo Sacerdote, Bom Pastor, vítima eterna e definitiva, para glória de Deus Pai.
Sermos associados a Ele, com a dignidade real do nosso sacerdócio, a oferecer, a oferecer e a oferecermo-nos. Pela Eucaristia passa, todos os dias, aquilo que a Igreja tem de mais nobre, de mais digno, onde se afirma verdadeiramente a dignidade real daqueles que Cristo resgatou pelo Seu sangue.
Na Eucaristia, toda a Igreja é, de certo modo, cheia de graça.
Meus irmãos e irmãs, queridos peregrinos: olhemos silenciosamente, com muito amor, Maria Mãe de Jesus, Mulher Eucarística, e aprendamos com Ela, a não banalizar, a não desperdiçar, a não esquecer o maior dom q Deus deixou à Sua Igreja: Cristo Eucarístico, o bom Jesus Escondido”.