No Juízo Final

No Juízo Final, os nossos pensamentos serão expostos a todos?

Pergunta - No Juízo Final, os nossos pensamentos serão expostos a todos? Se cometemos um pecado contra a castidade, consentindo num pensamento impuro, mas nos arrependemos e fomos perdoados, e dele nos purificamos no Purgatório, mesmo assim este pecado será exposto ao mundo todo? Se a confissão é secreta e individual, por que então os pecados seriam revelados no Juízo Final?

Resposta de Monsenhor José Luiz Villac - O Juízo Final é realmente um dia tremendo, como diz o responsório da Missa de Defuntos:

- Livrai-me, Senhor, da morte eterna, naquele dia tremendo; quando os céus e a terra forem abalados: quando vierdes julgar o mundo pelo fogo.

- Eu tremo e estou atemorizado, pensando no dia do juízo e da ira [de Deus]. Quando os céus e a Terra forem abalados.

- Dia de ira, aquele dia de calamidade e de miséria, grande dia cheio de amargura. Quando vierdes a julgar o mundo pelo fogo.

Portanto, para todos os homens, bons e maus, o dia do Juízo Final será um “dia de ira, aquele dia de calamidade e de miséria, grande dia cheio de amargura”. Mas, não o será igualmente para bons e maus, e aqui começa a grande diferença!

Antes do Juízo Final, o juízo particular

O Juízo Final é necessário, mas, na verdade, antes dele cada homem terá passado por um juízo particular, logo depois da morte. Poucos cristãos têm isto presente quando comparecem a um velório e vêem o defunto estendido na câmara mortuária; mas ali está um homem que já foi julgado por Deus e recebeu a sua sentença definitiva: Céu ou Inferno!

Se aquele homem ou mulher morreu na graça de Deus, está destinado ao Céu. Pode ser que, embora tenha morrido em estado de graça, não tenha pago suficientemente por todos os pecados cometidos; neste caso, passará antes pelo Purgatório, para satisfazer completamente a Justiça divina até ser purificado da mais leve mancha de pecado.

Depois disto a sua alma será levada ao Céu, ali aguardando a ressurreição geral dos corpos, quando então se unirá ao seu corpo restaurado para nunca mais morrer. Será nestas condições que ele se apresentará diante de Nosso Senhor Jesus Cristo no dia do Juízo Final, portanto certo da sua absolvição pelo Divino Juiz.

Quanto aos maus, que morreram em pecado mortal, as suas almas serão enviadas ao Inferno imediatamente após a morte, e também lá ficarão aguardando a ressurreição geral dos corpos, para se unirem aos seus corpos tenebrosos e receberem diante de toda a humanidade a confirmação da sentença terrível exarada no juízo particular.

Portanto, bons e maus não entram no grande anfiteatro do Juízo Final nas mesmas condições: uns já sabem que se salvaram, e portanto estão tranquilos e felizes; e outros já têm conhecimento de que se condenaram, e portanto estão desesperados e aterrorizados.

Estes últimos, para a sua vergonha, terão os seus pecados, mesmo os mais ocultos, desvendados aos olhos de todo o mundo, que assim verá como Deus foi justo ao condená-los.

E os pecados dos bons, também serão exibidos?

A necessidade do Juízo Final

Poucos cristãos têm presente, quando comparecem a um velório e vêem o defunto estendido na câmara mortuária, que ali está um homem que já foi julgado por Deus e recebeu a sua sentença definitiva — Céu ou Inferno!

Uma pergunta óbvia, ao se tratar do Juízo Final, é sobre a necessidade dele. Pois, se logo após a morte a alma é julgada por um juízo particular, e o seu destino eterno já está selado, nada mudará com o Juízo Final. Qual, pois, a sua razão de ser?

O Juízo Final - ou Juízo Universal, como também é chamado - é o grande ajuste de contas dos homens com Deus, como também dos homens entre si.

Comecemos por este último, apesar de ser menos importante. Menos importante, aliás, não quer dizer não importante. Até porque Jesus Cristo deu-lhe grande importância.

Com efeito, quando São Lucas introduz a questão da revelação dos pecados ocultos (cap. 12, 1-2), é justamente a propósito dos grandes hipócritas do tempo de Jesus, que eram os fariseus: “Começou Ele [Jesus] a dizer aos seus discípulos: Guardai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. Porque nada há de oculto que não venha a descobrir-se, e nada há escondido que não venha a saber-se”.

Importa pois que, no dia do Juízo Final, todos aqueles que quiseram passar por virtuosos aos olhos dos homens, mas estavam cheios de pecados ocultos, sejam publicamente desmascarados.

Ampliando este quadro, vemos quantas pessoas são caluniadas ou injustiçadas — em qualquer campo que se considere: moral, familiar, social, político, cultural, artístico, científico, técnico, laboral, etc. — e consequentemente menosprezadas ou preteridas em favor de outras francamente incompetentes, oportunistas ou desonestas. É preciso que a justiça seja feita aos olhos de toda a humanidade. É este grande ajuste de contas, em nível particular, que o Juízo Final propiciará.

Pode entretanto acontecer que alguns - ou muitos - que praticaram injustiças se tenham depois arrependido e salvado a sua alma. É claro que a injustiça praticada por essas pessoas também deve ser manifestada no Juízo Final, para reparar a honra dos lesados.

O facto de que, no sacramento da Confissão, se garanta o segredo absoluto sobre os pecados confessados, é uma condição necessária da vida nesta Terra: todo o convívio humano se tornaria insuportável se cada um ficasse a saber dos pecados ocultos dos outros. Porém, no dia do Juízo, essa necessidade cessa, pois o convívio a partir de então será na morada celeste, em condições totalmente outras.

Ademais, no Juízo se revelará também a seriedade da contrição e o rigor da penitência com que cada um lavou os seus pecados. O que lhe servirá de louvor. E não é um mérito pequeno. Pelo contrário, é altamente valioso aos olhos divinos ter alguém a coragem de olhar de frente os próprios defeitos e corrigi-los. Arrancar de si um defeito dói mais do que arrancar um braço, e só se consegue com um auxílio especial da graça, a qual Deus não nega a quem lhe pede. Assim, o mérito da penitência cobre o demérito do pecado; e onde abundou o delito, superabundou a graça, como disse São Paulo (Rom, 5, 20).

No fim das contas, a revelação dos nossos pecados ocultos, no dia do Juízo Final, não resulta em opróbrio, mas em motivo de acção de graças a Deus, que deste modo triunfou nas nossas almas, e em reconhecimento do mérito havido no arrependimento.

Porém, o Juízo Final não se restringe ao acerto de contas entre os indivíduos e destes com Deus. Nele serão julgadas também as famílias, as sociedades de várias ordens, os povos e as nações. Nele, como diz o Catecismo da Igreja Católica, Jesus Cristo “pronunciará a sua palavra definitiva sobre toda a história da humanidade” (nº 1040). Será uma grande aula de História.

Não é, pois, sem propósito que a eleição dos papas se faça na Capela Sistina, sob o tecto decorado com o célebre fresco de Miguel Ângelo sobre o Juízo Final. O que ali se decide, de cada vez, é o rumo que tomará a Santa Igreja, cuja barca arrasta atrás de si a História de toda a humanidade!