PRIORESA MARIA CELINA Expresso, 18/02/06

- Que motivos levam actualmente as raparigas a entrar num convento?
Hoje, como ontem, são os mesmos - Cristo. E só esse enamoramento, essa sedução, pode motivar uma decisão de entrar na vida religiosa e muito mais na vida contemplativa. Na história de uma vocação, ainda que se explique o porquê, há sempre algo que não se pode dizer, porque não se consegue. Há vivências que não se dizem, porque as palavras não as sabem traduzir… Deus chama raparigas de todas as condições; umas muito jovens, outras mais maduras, uma ainda com os livros de estudantes, outras já no exercício de uma profissão. Algumas vêm fazer uma experiência e depois não voltam, outras voltam e ficam.

A maternidade biológica revestia-se para mim de encantos sedutores. Poder ter um dia nos meus braços um, muitos filhos meus, era algo que me fazia vibrar as fibras mais íntimas do coração. Mas caíam-me os braços ao olhar para Nossa Senhora... gostava de ver as noivas... e desejava ser como a Virgem, sempre noiva, sempre virgem. Como conciliar estes dois amores?... Fui pensando e rezando. Aos 12 anos nasceu em mim o amor pelas missões. Mas ainda ficava uma insatisfação no meu coração. Aos 14 anos, numa tarde de Maio, depois de ter ouvido uma reflexão sobre a virgindade, fez-se luz no meu espírito e decidi ser carmelita. Compreendi que na vida contemplativa eu poderia atingir uma maternidade universal. Sabia que nunca poderia apalpar o fruto do meu trabalho, pois a vida contemplativa é uma vida de fé, de mãos vazias, mas vazias para implorar e para oferecer.

- Como reagiu a sua família? A minha família, como acontece quase sempre, não gostou da «ideia». Isso já eu previa, mas mais tarde aceitaram a minha decisão.
- Na infância ou adolescência pensou alguma vez ter outra profissão? Aos 17 anos desejei ser pára-quedista.
- Chegou a sentir alguma atracção por algum namorado? Costumo dizer q Jesus andou a tempo! Como é normal, os rapazes começaram a bater-me à porta. Então dizia que estava comprometida... e deixava no ar a surpresa e a interrogação – com quem!? Às vezes provoquei às minhas amigas verdadeiras piruetas de imaginação ao descrever-lhes as qualidades do meu Namorado (Jesus). Dizia-lhes que todos os dias nos encontrávamos, falava-lhes das Suas qualidades e elas lá ficavam a pensar quem seria, pois não se davam conta de nenhum Especial com quem me vissem. Depois de ter vindo para o Carmelo, uma delas disse-me: agora compreendo todo aquele mistério!...
- Porque optou pela clausura e pelas carmelitas? Vislumbrei a vida contemplativa como uma possibilidade de abraçar o mundo. Nunca gostei de coisas a meias. Ou tudo ou nada!
- Que contactos tem com o exterior? No ofício que desempenho, tenho bastantes contactos com o exterior, por telefone, por carta, ou recebendo pessoas por assuntos referentes à comunidade.
- Qual a influência da irmã Lúcia no Carmelo? Partilhou connosco o dia-a-dia com a naturalidade de todas, mas a todas marcou pela fortaleza demonstrada na busca da fidelidade, da perfeição. A sua palavra era ouvida com veneração. Foi conselheira durante quase toda a sua vida, ofício pelo qual tomou parte muito directa no governo do mosteiro.
A irmã Lúcia foi daquelas que deixou marca!