«Spe Salvi», encíclica para dar esperança à humanidade
Bento XVI: a vida «não acaba no vazio».
Bento XVI apresentou a encíclica «Spe Salvi» («Salvos na esperança»), na qual apresenta uma humanidade por vezes desenganada na dimensão da esperança oferecida por Cristo.
Começa com uma passagem da Carta do apóstolo São Paulo aos Romanos, «é na esperança que fomos salvos» (8, 24), e destaca como «elemento distintivo dos cristãos o facto de eles terem um futuro»: a sua vida «não acaba no vazio» (número 2).
A esperança, um encontro

«Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança», declara no número 3 da carta.
O Papa mostra o que é a esperança cristã apresentando o exemplo da escrava sudanesa Santa Josefina Bakhita, nascida em 1869, em Darfur, que dizia «eu sou definitivamente amada, aconteça o que acontecer; este grande Amor espera-me».
A encíclica explica que Jesus não trouxe uma «mensagem sócio-revolucionária», «não era um combatente por uma libertação política». Trouxe «o encontro com Deus vivo», «com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo».
Cristo «diz-nos quem é na realidade o homem e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente homem». «Ele indica ainda o caminho para além da morte; só quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro mestre de vida».
Para o Papa está muito claro que a esperança não é algo, mas Alguém: não se fundamenta no que passa, mas em Deus, que se entrega para sempre.
Neste sentido, acrescenta, a «crise actual da fé» «é sobretudo uma crise da esperança cristã».
Desilusões
A encíclica mostra as desilusões vividas pela humanidade nos últimos tempos, como por exemplo o marxismo, que «esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria.»
«O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.»
A fé cega no progresso é outra das desilusões analisadas, assim com o mito segundo o qual o homem pode ser redimido pela ciência.
«A ciência pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos. Mas, pode também destruir o homem e o mundo, se não for orientada por forças que se encontram fora dela». «Não é a ciência a que redime o homem. O homem é redimido pelo amor.» (25-26)
Lugares da esperança
O Papa indica quatro «lugares» de aprendizagem e de exercício da esperança.
O primeiro é a oração: «Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar» (32).
Recorda o testemunho do cardeal Nguyen Van Thuan, que durante treze anos esteve nas prisões vietnamitas, nove deles em isolamento: «numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança».
O segundo lugar de aprendizagem da esperança é o «agir». «A esperança, em sentido cristão, é sempre esperança para os demais». «Só a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do Amor e, graças a isso e por isso, possuem sentido e importância, só uma tal esperança pode, naquele caso, dar ainda a coragem de agir e de continuar».
O sofrimento é outro lugar de aprendizagem: «Certamente é preciso fazer tudo o possível para diminuir o sofrimento»; contudo, «não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor».
O último lugar de aprendizagem da esperança é o Juízo de Deus: «Sim, existe a ressurreição da carne. Existe uma justiça. Por isso, a fé no Juízo final é, primariamente, e sobretudo esperança – aquela esperança, cuja necessidade se tornou evidente justamente nas convulsões dos últimos séculos».
Mas a esperança não é egoísta. «Ninguém vive só. Ninguém peca sozinho. Ninguém se salva sozinho. Continuamente entra na minha existência a vida dos outros: naquilo que penso, digo, faço e realizo. E, vice-versa, a minha vida entra na dos outros: tanto para o mal como para o bem».
«O que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança?», pergunta o Papa; e responde «Então terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal».
A encíclica conclui apresentando «Maria, estrela da esperança». «Mãe nossa - invoca -, ensinai-nos a crer, esperar e amar convosco. Indicai-nos o caminho para o seu reino! Estrela-do-mar, brilhai sobre nós e guiai-nos no nosso caminho».
 

Sentido do sofrimento, na encíclica sobre esperança de Bento XVI

O homem vale tanto para Deus que Ele mesmo se fez homem para poder «com-padecer» com ele; a partir daí se difunde em cada sofrimento «o consolo do amor participado de Deus e assim aparece a estrela da esperança».
Segundo a fé cristã, a salvação ou a redenção que nos foi dada é uma «esperança fiável graças à qual podemos enfrentar o nosso presente»; o fundamento da esperança é Deus, «o Deus que tem um rosto humano e que nos amou até ao extremo, cada um em particular e a humanidade no seu conjunto».
Este rosto é Jesus, e o que trouxe, «tendo morto Ele mesmo na cruz», «é o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com Deus vivo», ponto essencial na existência humana, porque, como diz Bento XVI, «quem não conhece Deus» «está sem a grande esperança que sustenta toda a vida»: o amor de Deus, incondicional, «manifestado em Cristo Jesus».
Pois nas provas verdadeiramente graves é necessária esta grande esperança, reconhece o Papa. E uma dessas provas é o sofrimento, que pode converter-se em «escola» de esperança, como propõe na sua encíclica.
«Podemos tentar limitar o sofrimento, lutar contra ele, mas não podemos suprimi-lo»; «o que cura o homem» não é fugir da dor, «mas a capacidade de aceitar a tribulação, amadurecer nela e encontrar nela um sentido mediante a união com Cristo, que sofreu com amor infinito», aponta o Santo Padre.
Entre as testemunhas de esperança que oferece como exemplo está o mártir vietnamita Paulo Le-Bao-Thin, falecido em 1857, cuja carta «desde o inferno» evidencia a «transformação do sofrimento mediante a força da esperança que provém da fé».
«No meio destes tormentos que aterrorizariam qualquer um, pela graça de Deus estou cheio de gozo e alegria, porque não estou só, mas Cristo está comigo», escreveu o mártir. Desde a esperança, ele ensinou que «o sofrimento – sem deixar de ser sofrimento – se converte, apesar de tudo, em canto de louvor».
A questão é crucial porque seja tratando-se do indivíduo ou da sociedade, «a grandeza da humanidade está determinada essencialmente por sua relação com o sofrimento e com quem sofre».
«Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a ‘com-paixão’, para que o sofrimento seja compartilhado e levado também interiormente, é uma sociedade cruel e inumana».
Mas para aceitar os que sofrem, é necessário «encontrar pessoalmente no sofrimento um sentido, um caminho de purificação e de maturidade, um caminho de esperança», conscientes de que a esperança cristã não é individualista, mas deve ser compartilhada.