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"Assim como Eu vos amei, amai-vos uns aos outros"

(Jo 13, 34)

 
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A LEITURA ESPIRITUAL

 

O que é a “leitura espiritual”?

Há muitos tipos de leitura religiosa. Falemos daquele que, na linguagem clássica cristã, se chama «leitura espiritual», em sentido estrito, e que costuma fazer parte do programa diário das pessoas que querem levar a sério a sua vida interior.

Consiste na leitura atenta e bem assimilada de um livro que trate de assuntos de «vida espiritual», com seriedade e boa doutrina, e que os focalize de maneira prática, de modo que nos ajude a aplicá-los à nossa vida diária.

É preciso ter em conta que dentro do conceito estrito de «vida espiritual» ou de «vida interior», não só entram as práticas de oração, de adoração, a Eucaristia, o amor a Nossa Senhora e outras devoções… – que são, sem dúvida, elementos básicos de uma vida espiritual autêntica-, mas entram também as virtudes e o modo de melhorá-las (fé, caridade, paciência, firmeza, temperança, constância, etc.), bem como os defeitos (vaidade, preguiça, ira, inveja, desordem sensual, etc.) e o modo de vencê-los; e ainda o esforço por santificar a família, por achar Deus no trabalho, por levar Deus a outras almas, etc, etc. Em suma, entra tudo quanto nos ajuda a procurar a santidade e o apostolado no dia-a-dia.

Como fazer a leitura espiritual?

1) Antes de mais nada, é preciso convencer-se da sua necessidade e tomar a decisão de fazê-la diariamente, sempre que possível.

2) Ao tomar esta decisão deverá ter em conta:

a) Primeiro: que é importante escolher o melhor momento do dia – o “seu” melhor momento - para esta leitura. Antes do café da manhã? No escritório, antes de começar o trabalho? No começo da tarde (hora que pode ser útil para estudantes, para algumas mães de família…)? Ao visitar uma igreja, antes de voltar para casa? No autocarro ou no metro, desde que possa sentar-se? Pense, faça experiências, e decida.

b) Pense que será mais fácil definir o horário, se tiver consciência de que a leitura não precisa de ser longa: ordinariamente bastam dez ou quinze minutos para tirar bom fruto desta prática espiritual. Vivendo-a com constância, em pouco tempo terá lido, e aproveitado, mais livros bons do que imagina.

c) É importante que defina – volto a dizer – o lugar, o momento e a duração da leitura espiritual. E acrescento um conselho, fruto da experiência: se você definir dez minutos de leitura, faça sempre dez minutos como “norma”, nunca menos. Caso queira esticar esta leitura por mais tempo, ou deseje ler mais noutra hora, não há problema, mas considere isto como “leitura extra”. É só em relação ao seu programa diário, aos seus dez ou quinze minutos, que se deve sentir comprometido, com sincera exigência.

d) Escolha bem, em cada momento, o livro de leitura espiritual. Para isso, é muito útil pedir conselho a uma pessoa de critério que conheça a sua alma e as lutas da sua vida. Em todo o caso, sempre que possível, procure ler um livro que vá ao encontro das suas necessidades espirituais daquela temporada.

e) Uma vez definido o livro, leia-o devagar, pausadamente, em sequência, e do começo ao fim (lendo, relendo, sublinhando alguma palavra ou frase, refletindo, rezando). Quem borboleteia nas leituras, “debicando” por curiosidade pedacinhos de vários livros ao mesmo tempo, sem completar nenhum, tira pouco proveito e permanece superficial na sua vida interior.

f) Não importa quanto tempo demorar a terminar um livro, mesmo que seja breve. Também não importa, antes pelo contrário, reler vários dias em seguida os mesmos trechos do livro, se a sua intenção é assim gravá-los melhor, para tirar deles mais fruto. Um livro bom pode ser relido todos os anos (por exemplo, um clássico sobre a Paixão de Cristo, no tempo da Quaresma; ou um bom livro sobre Nossa Senhora, em Maio, mês de Maria).

g) Depois da leitura diária, ao fechar o livro pergunte-se: O que foi que eu li, o que compreendi, o que me ficou mais gravado?

3. É muito bom ter o desejo de conhecer (de ler) as obras clássicas de espiritualidade, que têm ajudado inúmeras pessoas a aproximarem-se de Deus e a melhorar. Para ter ideia de que tipo de livros estou a falar, vou citar alguns, apenas alguns, dentre os mais conhecidos:

─ Tomás de Kempis: A imitação de Cristo

─ São Francisco de Sales: Introdução à vida devota (também chamado Filoteia), Tratado do Amor de Deus (mais “teológico”)

─ Santo Afonso Maria de Ligório: A oração, A prática do amor a Jesus Cristo, As Glórias de Maria

─ Santa Teresa de Lisieux (Santa Teresinha): História de uma alma (também chamado Manuscritos autobiográficos)

─ Santa Teresa de Ávila: O livro da vida, Caminho de perfeição

─ Santa Catarina de Sena: O diálogo

E muitos outros, além de numerosas obras excelentes de autores antigos e contemporâneos, que podem fazer um bem imenso à nossa alma. Pesquise, pergunte, consulte a quem lhe puder dar um bom conselho. Acredite na leitura espiritual. A ela se pode aplicar perfeitamente o dito de Jesus: Pelos seus frutos os conhecereis (Mt 7,16).

4. Dois esclarecimentos:

a) Não confunda a «leitura espiritual» com a «oração mental» (ou a «meditação»). É muito frequente o engano de pessoas que utilizam determinados livros para fazer a sua oração mental (ou a sua meditação), e acham que com isto estão a fazer leitura espiritual. Misturam e confundem conceitos diferentes.

Para a oração mental ou meditação, cada dia, se quiser, você pode escolher à vontade textos de livros diferentes, os que achar que lhe podem servir de apoio para meditar sobre a sua vida e “falar com Deus”. A «leitura espiritual», porém, como acabamos de ver, é coisa diferente: trata-se de ler em sequência, quase que de “estudar” um livro inteiro, completo, que garanta o aprofundamento da sua formação. Não esqueça esta distinção;

b) Há outras leituras, que também nos fazem muito bem; mais ainda, que nos fazem muita falta: as que nos proporcionam formação doutrinal. Entre elas, podem-se destacar os catecismos: desde o Primeiro Catecismo ou o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, até o próprio Catecismo da Igreja Católica, amplo, profundo, excelente, ainda que exige certa preparação doutrinária para o entender bem. Um bom livro de teologia para leigos, que sempre se recomenda, é a obra do americano Leo Trese, A fé explicada; excelente, pedagógico e claro. Em bastantes casos, pode ser usado também como “leitura espiritual”.

Todos deveríamos achar algum tempo (não precisa de ser diário, pode ser semanal, mais longo nas férias) para ler obras doutrinais. Hoje, num mundo de ideias confusas, é uma necessidade vital.

 

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