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Como podemos falar sobre a morte às crianças? Imprimir e-mail

 

Como podemos falar sobre a morte às crianças?  

As crianças são espirituais e elas entendem além do que a razão adulta consegue compreender

Para sabermos como falar com as crianças a respeito da morte, antes precisamos de saber como nós pais, lidamos com ela. Somos de outro tempo. Quando éramos crianças, os falecidos eram velados em suas próprias casas, e quem trocava a roupa, fazia a barba do falecido, geralmente, eram os filhos ou alguém muito próximo. As crianças estavam presentes, correndo em volta da casa e do caixão. Os velórios reuniam um grande número de pessoas, que ficavam o tempo todo acompanhando a família, muitos amigos permaneciam a noite inteira.

Muitas das vezes, não se morre em casa, mas sozinho nas UTIs. Assim, perdemos o momento “máximo” da vida de uma pessoa.

Hoje, muitas pessoas passam para dar um abraço e ficam 10, 15 minutos; depois, seguem as suas vidas. Isto tudo é uma pena, porque a morte põe-nos em xeque a respeito do sentido da vida. É um momento de paragem, é inevitável não pensar, diante de um caixão, na própria morte ou na morte de alguém muito querido.

A criança sabe do sobrenatural, porque ela é espiritual

E as crianças? Ficavam em volta, brincavam, mas também observavam o que acontecia. Ninguém me ensinou sobre a morte, ninguém nunca falou a respeito dela, mas como nós fazíamos parte de todo este “sagrado”, de todo este ritual, simplesmente nós entendíamos. Entendíamos que era um momento de muita dor. Eu, por exemplo, vi o meu pai a chorar o velório inteiro ao lado do caixão do meu avô, quando eu era bem pequena. Por dentro eu perguntava: “Por que é que eu não choro?”

Só mais tarde, quando cresci, entendi que a dor de um adulto é diferente da dor da criança; primeiro, porque a criança não tem noção sobre o tempo, ela não entende que o avô partiu e nunca mais vai voltar. Crianças pequenas não têm noção de quanto é uma semana, um mês, dez anos, muito menos do nunca, e isto suaviza a dor. Mais bonito e surpreendente é que a criança é espiritual e entende além do que a nossa razão adulta consegue compreender. Ela sabe do sobrenatural, porque ela é espiritual.

Não se fala de morte

É uma pena que o evento morte esteja cada vez mais escondido, camuflado. O velório já é dentro do cemitério, os cemitérios parecem grandes jardins, os cortejos desapareceram das grandes cidades ou se camuflam no meio do trânsito. Enfim, nos nossos tempos modernos, não se fala de morte, camufla-se, e quando se fala, é só nas tragédias e assassinatos, o que deixa a imagem da morte sempre muito negativa.

Lembro-me, perfeitamente, do meu avô doente na casa dele, no seu quartinho. Houve um momento em que ficámos a sós, ele olhou para mim e disse: “O vovô vai morrer”. Eu, querendo animá-lo (embora soubesse que no fundo aquilo era verdade), disse: “Não, o senhor vai ficar bom, rápido!” E ele, olhando-me nos olhos, disse: “Não! O vovô não vai ficar bom”.

Enfim, alguém chegou ao quarto e ficámos calados, foi o nosso segredo. Ele preparou-me para a morte. No dia em que ele morreu, a minha mãe veio acordar-me, de manhã, para me contar, e ela não precisou de dizer uma palavra. Eu sentei-me na cama e disse: “Já sei, o vovô morreu”. Sou grata pelo meu avô ter tido a coragem que os meus pais não tiveram.

Paradoxo da vida

A tanatóloga Wilma Torres, durante toda a sua vida académica, estudou sobre a morte. Era o seu trabalho. Quando interrogada se isto afetava, de alguma forma, a vida dela, respondeu: “Pelo contrário, quanto mais estudo a morte, mais aprendo a viver”. Acho que isto nos ajuda a fazer as pazes com a morte, ressignificar dentro de nós mesmos o seu sentido. Só assim saberemos como falar sobre ela com os nossos filhos. Ela é o grande paradoxo da vida.

Ricardo Petrarca, autor do livro ‘A chama e a morte’, cita frases belíssimas ditas pelos índios Guaranis, com quem conviveu algum tempo: “A morte é um ser, é irmã da noite e do silêncio. Ela gosta de ficar perto do nosso coração, e fica muito triste quando não gostamos dela. Como ela mora no nosso coração, então a pessoa que não gosta dela, fica triste também. A morte e a vida são geminadas, irmãs gémeas. Tu perdeste um parente, parte de ti morre. Fica um lugar como uma caverna, mas esta caverna pode ser um caminho para a vida”.

A beleza da morte

O coração das crianças tem a simplicidade e a sabedoria semelhantes à profundidade e sabedoria do povo indígena. Elas saberão ver a beleza da morte. Se tiverem histórias bonitas para contar sobre a morte (como a minha com o meu avôzinho), contem aos seus filhos, isto prepara-os. As crianças são geniais, são muito capazes de imaginar a cena que descrevemos ao contar as nossas histórias. A criança não pode ver a morte como um monstro, como uma inimiga, porque ela não é, a morte faz parte da vida.

A primeira vez que levar o seu filho a um velório, explique, antes de chegar ao local, que ele verá pessoas a chorar, um caixão onde estará deitado quem faleceu, flores… Diga que isto é normal e que está tudo bem, que é assim mesmo. Não devemos forçar a criança a nada, como pegar na mão do defunto. Se perceber algum tipo de ansiedade na criança, fique um pouco do lado de fora, fique um pouco mais afastado, devagarinho ela mesma vai-se aproximando, no tempo dela.

Um pedaço do céu

A Fundadora do Movimento dos Focolares, Chiara Lubich preferiu morrer em casa, deitada na sua cama, no seu quarto simples, diante da imagem de Jesus Abandonado. As pessoas, os consagrados, jovens que faziam parte do movimento, fizeram uma longa fila para passar diante dela, e muitos apenas agradeciam, e ela olhava-os profundamente nos olhos. Era a despedida, neste caso, um pedaço de céu. Não havia desespero, mas paz.

 

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