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Beata Maria Clara do Menino Jesus Imprimir e-mail

Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa
sobre a Beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus

 1. No próximo dia 21 de Maio vai ser beatificada em Lisboa a Irmã Maria Clara do Menino Jesus, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC). A Igreja que peregrina em Portugal rejubila por contar mais uma sua filha elevada aos altares e proposta à veneração dos fiéis como modelo de vida cristã e intercessora junto de Deus.
A beatificação constituirá especial momento de graça para as Franciscanas Hospitaleiras, espalhadas pelos quatro cantos do globo, ao verem o seu carisma confirmado pela proclamação da santidade da Fundadora.
Nesta hora solene, os Bispos de Portugal exprimem vivo reconhecimento pelo testemunho evangélico e pela fecunda acção pastoral e social desta benemérita Congregação no nosso país e no mundo ao longo de século e meio, dando continuidade ao legado espiritual da Irmã Maria Clara.
Apontamento biográfico
2. A nova Beata nasceu em 25 de Junho de 1843 na Quinta do Bosque, propriedade de sua família, situada no termo da actual cidade da Amadora. Foi baptizada na igreja paroquial de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, a 2 de Setembro seguinte com o nome de Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque.
Como os apelidos indicam, Libânia veio ao mundo no seio da nobreza. Terceira de sete filhos, viveu uma infância feliz no ambiente cristão do seu lar. Mas logo na adolescência experimentou o sofrimento doloroso da orfandade. Sua mãe faleceu em 1856 e o pai um ano depois, ambos vitimados pela epidemia de cólera que então grassava em Lisboa.
Depois de ter permanecido cinco anos no Asilo Real da Ajuda e outros tantos em casa dos Marqueses de Valada, seus parentes e amigos, Libânia transferiu-se em 1867 para o Pensionato de S. Patrício, instalado no antigo convento do mesmo nome, junto à muralha do Castelo de S. Jorge. Dois anos mais tarde tomou hábito no Recolhimento de terceiras franciscanas seculares capuchinhas de Nossa Senhora da Conceição, também sedeado em S. Patrício, com o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus, que haveria de usar até à morte.
A casa de S. Patrício era dirigida pelo Padre Raimundo dos Anjos Beirão, antigo membro da Ordem Terceira Regular de S. Francisco, que fora obrigado a abandonar o convento pelo decreto de supressão dos institutos religiosos de 1834. Depois de exclaustrado, dedicou-se à pregação e ao socorro dos órfãos e dos pobres. O seu encontro com Libânia, depois Irmã Maria Clara, foi providencial. Viu nela a mulher escolhida por Deus para, com ele, fundar uma Congregação que, imitando o bom samaritano do Evangelho, minorasse as graves carências da população portuguesa da época.
O projecto viria a realizar-se a partir de S. Patrício. Para beneficiar da experiência de outra Congregação franciscana já consolidada, em Fevereiro de 1870 o Padre Beirão enviou a Irmã Maria Clara mais três companheiras do Recolhimento a fazer o noviciado nas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras e Mestras de Calais, no norte da França, onde professou a 14 de Abril de 1871. Regressada de imediato a Portugal, o Padre Beirão, logo no dia 3 de Maio, empossou-a como superiora e mestra de noviças das recolhidas capuchinhas que aderiram à reforma da sua agremiação. Foi o momento fundacional da nova Congregação.
O instituto recém-criado foi aprovado pelo Governador Civil de Lisboa, por alvará de 22 de Maio de 1874, com a designação de Irmãs Hospitaleiras dos Pobres por Amor de Deus, mas somente como «associação de beneficência». Não era possível outra forma de reconhecimento pela autoridade civil pois as congregações religiosas estavam proibidas em Portugal desde 1834.
O passo seguinte foi a aprovação pontifícia da Congregação pelo Papa Pio IX a 27 de Março de 1876. O novo estatuto canónico garantia segurança institucional à jovem comunidade religiosa. Por iniciativa do Padre Beirão, a Irmã Maria Clara assumiu a responsabilidade da mesma como Superiora Geral em cerimónia familiar realizada a 3 de Maio de 1876, quinto aniversário da fundação. Tinha 33 anos. As irmãs começaram a chamar-lhe Fundadora e a dar-lhe, na intimidade, o nome de Mãe Clara.
Dois anos depois, a 13 de Julho de 1878, o Padre Beirão faleceu. A sua inspiração esteve sempre presente no modo como a Irmã Maria Clara dirigiu a Congregação até à morte, ocorrida a 1 de Dezembro de 1899.
 Actividade caritativa da Congregação
3. A Congregação desenvolveu uma actividade marcante em Portugal no último terço do século XIX. Durante este período, as irmãs trabalharam em 45 hospitais, 26 colégios, 15 asilos de inválidos, 14 asilos de infância e 6 cozinhas económicas. Embora localizada maioritariamente na região de Entre Douro e Minho, esta centena de casas estava disseminada por todo o país incluindo pequenas cidades e vilas do interior. Parte significativa das instituições servidas pelas irmãs pertencia a Misericórdias.
A Congregação irradiou também para o Ultramar. Por vezes a pedido do próprio Governo, o qual, apesar do decreto de extinção dos institutos religiosos de 1834, aceitava a presença das congregações dedicadas à assistência, à educação e às missões ultramarinas. Neste contexto as irmãs prestaram serviço nos hospitais de Bolama (Guiné-Bissau), Goa, Luanda (Angola) e Santiago da Praia (Cabo Verde).
O aumento constante e extraordinário do número de irmãs permitia à Irmã Maria Clara atender as solicitações que lhe iam chegando das mais variadas procedências. A tabela estatística da Congregação nos primeiros trinta anos é reveladora. As religiosas professas passaram de 3 em 1871 para 150 em 1880, 355 em 1890 e 468 em 1900. Mesmo assim não foi possível atender favoravelmente todos os pedidos.
No governo da Congregação a Irmã Maria Clara não actuava como gestora de pessoas e serviços. O espírito que a animava era outro e ficou bem manifesto num episódio da sua vida. Um dia, ao ver grupos de adultos e crianças a mendigar, vestidos de andrajos e sob um frio rigoroso, disse às meninas que a acompanhavam: «Olhem, aquela é que é a minha gente!... Que pena tenho de não os poder socorrer!…»
Estimuladas pelo exemplo da Fundadora, as Irmãs Hospitaleiras souberam concretizar no quotidiano a divisa do seu brasão: Lucere et fovere. Alumiar e aquecer. Iluminaram o espírito de crianças e jovens a abrir para as grandes opções da vida. Aconchegaram a existência de doentes e idosos, tantas vezes fragilizada por circunstâncias adversas.
A gesta caritativa da Congregação documenta a vitalidade interna da Igreja Católica no período final do século XIX. Não é possível escrever a história da assistência e da educação em Portugal nessa época sem referir o contributo abnegado das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras.
Sob o olhar providencial de Deus
4. A intervenção da Irmã Maria Clara em diferentes domínios da área social procedia duma motivação religiosa. O seu coração de mulher franciscana enchia-se de compaixão diante do sofrimento humano e procurava aliviá-lo com o vigor da sua fé. A sua actuação aparecia como «rosto da ternura e da misericórdia de Deus».
Deus ocupava o primeiro lugar na sua vida numa atitude filial de reconhecimento. «Oh! Como Deus é bom! Bendito seja Deus!», exclamava ela como ressonância da festa que as irmãs lhe fizeram no seu onomástico a 12 de Agosto de 1899.
A sua missão de Superiora Geral, sobretudo no último decénio, foi perturbada por vicissitudes, de origem externa e interna, que afectaram a tranquilidade da Congregação. Evocando esses acontecimentos dolorosos em carta circular dirigida às irmãs a 29 de Outubro de 1899, um mês antes de falecer, a nova Beata manifesta sereno abandono e confiança: «Embora as mais cruéis amarguras, contradições e desgosto, vejo um olhar providencial de Deus que vela sobre nós».
Na segunda metade do século XIX, apesar das grandes dificuldades que o Catolicismo português enfrentava, a Irmã Maria Clara soube manifestá-lo do modo mais criativo e fecundo, com ardente amor a Jesus e generoso serviço dos pobres. Na segunda década do século XXI, face às dificuldades acrescidas de tantos concidadãos nossos, quanto à sobrevivência condigna e ao sentido mais profundo da vida, o exemplo e a intercessão da nova Beata ser-nos-ão de grande incentivo e apoio, na mesma senda da caridade verdadeira.
Fátima, 3 de Maio de 2011

“Mãe Clara” será beatificada em Maio

Portuguesa fundou Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição
A beatificação da irmã Maria Clara do Menino Jesus (1843-1899) vai-se realizar no dia 21 de Maio, no Estádio do Restelo, em Lisboa.
O processo de beatificação alcançou o seu ponto culminante no dia 10 de Dezembro de 2010, quando Bento XVI assinou o Decreto de aprovação do milagre atribuído à intercessão da Irmã Maria Clara. Trata-se de um evento de cura de uma católica espanhola, Georgina Troncoso Monteagudo, afectada por um grave problema de pele.
Libânia do Carmo Galvão Meixa de Moura Telles e Albuquerque nasceu na Amadora, em Lisboa, a 15 de Junho de 1843. Recebeu o hábito de Capuchinha, em 1869, escolhendo o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus.
A futura beata foi enviada a Calais (França), a 10 de Fevereiro de 1870, para fazer o noviciado, na intenção de fundar, depois, em Portugal, uma nova Congregação.
Abriu a primeira comunidade da CONFHIC em S. Patrício - Lisboa, no dia 3 de Maio de 1871 e, cinco anos depois, a 27 de Março de 1876, a Congregação foi aprovada pela Santa Sé.
A “Mãe Clara”, como é popularmente conhecida, morreu em Lisboa, no dia 1 de Dezembro de 1899.
Beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus a 21 de Maio de 2011   
21 de Maio de 2011 foi o dia escolhido, pela Sé Apostólica, para a beatificação de Maria Clara do Menino Jesus, que acontecerá no Estádio do Restelo, em Lisboa, cidade onde morreu a nova beata. Espera-se um significativo número de participantes, não só de Portugal, como delegações dos 14 países onde se encontra a Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC), fundada pela Irmã Maria Clara do Menino Jesus (1843-1899) e pelo Padre Raimundo dos Anjos Beirão (1810-1878). Depois de, no passado dia 10 de Dezembro de 2010, Bento XVI ter assinado o Decreto de aprovação do milagre, operado por Deus em D. Georgina Troncoso Monteagudo, atribuído à intercessão da Irmã Maria Clara, só faltava o anúncio da data da beatificação.
De família nobre, Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque nasceu na Amadora, a 15 de Junho de 1843, filha de Nuno Tomás de Mascarenhas Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque e de D. Maria da Purificação de Sá Carneiro Duarte Ferreira. Foi baptizada na igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica. Tendo ficado órfã de mãe e pai, respectivamente, nas epidemias de 1856 e 1857, ingressou no Asilo Real da Ajuda, orientado pelas Filhas da Caridade francesas. Com a expulsão das suas educadoras, em 1862, embora tendo família, aceitou o convite dos Marqueses de Valada que a receberam e trataram como filha. Após cinco anos de vida faustosa, entrou no Pensionato de S. Patrício. Aí, sob a orientação espiritual do Padre Raimundo dos Anjos Beirão – ardente pregador apostólico português –, veio a professar particularmente nas Terceiras Seculares de S. Francisco de Assis, as Capuchinhas de Nossa Senhora da Conceição, com o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus.

Foi o grito da realidade, a pobreza e a miséria humana, que apontou o rumo a tomar! As dificuldades e carências do séc. XIX (revoluções, consequências da industrialização crescente, degradação social, pobreza, miséria, etc.), o enorme clamor de uma multidão anónima de desvalidos, entregues a si mesmos, reclamando uma resposta concreta interpelaram profundamente Raimundo e Clara. Sentem-se chamados e enviados a fazer o bem onde fosse necessário: cuidar os doentes e os sós, acolher e educar crianças pobres, iluminar caminhos, suavizar a dor, ser regaço acolhedor. Urgia, de facto, a fundação de uma Congregação portuguesa, preenchendo o vazio da expulsão das religiosas estrangeiras.

 Como a legislação portuguesa de 1833/1834 decretara a extinção das ordens religiosas, a confiscação dos bens eclesiásticos e a proibição de receber noviças, a Irmã Maria Clara teve de deixar a pátria e partir para Calais - França, a 10 de Fevereiro de 1870, a fim de fazer o Noviciado e a Profissão Religiosa, na intenção de, posteriormente, fundar uma nova Congregação, em Portugal. Emitiu os votos públicos de Amor a Deus - pobreza, castidade e obediência -, no dia 14 de Abril de 1871. Regressada a Portugal, dias depois, a 3 de Maio de 1871, juntamente com o Padre Raimundo dos Anjos Beirão, deu início à Congregação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres pelo Amor de Deus, depois Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas, hoje Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Cinco anos depois, a 27 de Março de 1876, a Congregação era aprovada pela Sé Apostólica. Já, em 1874, tinha sido reconhecida civilmente como associação de beneficência.
Mulher de uma sensibilidade riquíssima e de um coração repleto de bondade e de ternura pelos mais pobres e abandonados, a Irmã Maria Clara dedicou toda a sua vida a minorar sofrimentos e dores, enchendo Portugal de casas de assistência, de atendimento e de educação, onde todos pudessem encontrar carinho e amparo, fosse qual fosse a sua condição ou estado social: creches, assistência a crianças e a inválidos, domicílios, escolas e colégios, hospitais, cozinhas económicas, etc.. Os apelos chegavam dos mais diversos lugares e países. As Irmãs começaram a ser enviadas, inclusive ad gentes: Angola em 1883; Índia em 1886; Guiné em 1893 e Cabo Verde em 1893. Não obstante as contrariedades que lhe exigiram fortaleza e determinação, a Irmã Maria Clara, dotada de um invulgar dinamismo evangelizador, abriu mais de 140 obras e recebeu mais de mil Irmãs, tendo unicamente em vista a urgência da caridade.
Envolta em fama de santidade, a Irmã Maria Clara faleceu em Lisboa, a 01 de Dezembro de 1899, depois de uma vida inteiramente dedicada a fazer o Bem, onde fosse necessário. Os seus restos mortais repousam na Cripta da Casa-Mãe da Congregação, em Linda-a-Pastora, onde acorrem inúmeros devotos a implorar a sua intercessão junto de Deus. Passados 111 anos e após ter decorrido o processo de canonização, aberto oficialmente, em 1995, a Igreja, com a leitura da Carta Apostólica, proclamará beata a Irmã Maria Clara do Menino Jesus, isto é, bem-aventurada, feliz, apresentando-a, assim, como exemplo, desafio e estímulo para todos os cristãos. A sua vida transparece fidelidade e o seu carisma permanece actual e necessário. Para o seu tempo, como para o nosso, onde tudo parece contrário, a Irmã Maria Clara ergue-se, humilde, como referência credível de sentido, como sinal de esperança que reflecte para além de si mesma.

 “Maria Clara, um rosto da ternura e da misericórdia de Deus”: eis o slogan que dará o tom às comemorações. De facto, nela se visibilizam os traços característicos do coração de Deus: bondade, ternura, compaixão, misericórdia, acolhimento, gratuidade, confiança, amor. Segundo D. António Couto, Bispo Auxiliar de Braga, a Irmã Maria Clara “tinha um grande coração que vê”. Vê. Deixa-se tocar profundamente pela miséria em que mergulha o povo português. Rompe barreiras e busca soluções, por todos os meios ao seu alcance. Abdica de tudo e faz dos pobres a sua família predilecta. Torna-se a Irmã dos pobres.
O lema “onde houver o bem a fazer que se faça”, que emerge da forma activa como a Irmã Maria Clara viveu o Evangelho, é, hoje, prolongado no projecto de vida dos membros da grande família Franciscana Hospitaleira, composta por Irmãs, Consagradas Seculares, Leigas Consagradas e Leigos comprometidos na Igreja e na sociedade. Inserida no mundo e situada no tempo, a missão hospitaleira continua a exercer-se, na alegria da gratuidade, no âmbito das obras de misericórdia, segundo os critérios de felicidade propostos por Jesus.


CONTA D. GEORGINA, A MIRACULADA

Embora acontecesse em 2003 e divulgada em 2004, os anos foram diluindo pormenores do milagre e, hoje, há quem deseje avivar o espantoso acontecimento.
Conta D. Georgina e está provado em documentos que, em 1969, lhe apareceu uma ferida no braço direito, depois diagnosticada, por especialistas de Vigo e de Madrid, como Pioderma gangrenoso. A úlcera foi alastrando por todo o braço, atingindo também o seio. Além de diversas pomadas aplicadas, foram feitos vários enxertos, sem resultado algum. Dado que a chaga também cobria parte do cotovelo, ficou sem flexibilidade e o braço imobilizado, preso ao peito. A ferida, de bordos violáceos, exalava odor desagradável e aparecia em carne viva, produzindo grande dor ao simples roçar ou leve toque. Às vezes, era tão intensa essa dor que a enferma pedia ao médico que lhe amputasse o braço, coisa que ele se negara sempre a fazer. Há sempre tempo para isso, dizia.
Todos os dias de manhã, tomando um táxi, D. Georgina ia de Baiona a Vigo, para o curativo e, bastantes vezes, voltava à tarde para o repetir, dado que a dor e o cheiro eram insuportáveis. Anos e anos…
Realizou o primeiro enxerto em 1971, a que se seguiram outros. Fazia-lhe os curativos o próprio cirurgião, Dr. Ignacio do Carmo, que acompanhou todo o processo da doença. Porém, no dia 21de Junho de 2002, não imaginava que lhe faria o último. No dia seguinte, o médico foi internado num hospital, com diagnóstico de tumor cerebral. Veio a falecer, no dia 7 de Julho seguinte.
D. Georgina sentiu grande angústia e enorme desamparo. Assustava-a procurar outro médico que, como é óbvio, lhe pediria novos exames. Só o lembrar-se disso provocava-lhe enorme sofrimento.
Filiada na Liga Pró-Canonização e cheia de fé na intercessão da Madre Maria Clara, cujo túmulo havia visitado em 1998, D. Georgina decidiu escolhê-la como sua médica e confiar-lhe o tratamento. Resolveu ser ela própria a fazer os curativos, aplicando as mesmas pomadas que utilizava o Dr. Ignacio. Enquanto procedia a essa acção, ia pedindo à sua protectora que a melhorasse, para melhor poder ajudar sua irmã Olga, naquela ocasião imobilizada, consequência de uma intervenção cirúrgica de ortopedia. Como desde há anos costumava fazer, não deixava de meter uma estampa da Venerável Serva de Deus entre as ligaduras, certa do seu cuidado.
Por altura do Verão de 2003, mais uma vez se repetiam grandes flictenas sobre a ferida que, ao rebentarem, a deixavam em carne viva. Foram passando os meses de Agosto, Setembro e parte de Novembro, sem notar-se melhoria alguma na chaga que continuava a cobrir o cotovelo.
O dia 11 de Novembro fora agitado e chegara à noite cansada e sofrida. Apesar da dor, de sentir e ver as ligaduras molhadas, não teve ânimo de tratar a ferida. No dia seguinte, a 12 de Novembro de 2003, pelas 10h00, ao retirar as ligaduras, viu que a chaga estava completamente coberta de pele rósea, como de menino, e totalmente fechada. Chamou as suas irmãs e, mostrando o braço, exclamou: “Olhem, o braço está curado. Já não há que fazer o curativo”. Foi a Madre Clara!
Suas irmãs Olga e Teresa, bem como a empregada doméstica, foram as primeiras testemunhas. Os vizinhos e amigos reagiram com espanto. Espanto, também, foi a rápida flexibilidade do braço e todo o movimento retomado, perdido há 34 anos. Desde aquele dia, continuo bem. A úlcera repentinamente desaparecida não teve recidiva. E já lá vão mais de sete anos…
Os médicos não encontraram explicação. Embora, em alguns casos, o Pioderma gangrenoso possa ter cura, é sempre um processo lento.
A grande fé de D. Georgina fez o milagre acontecer.

Homilia de D. José Policarpo

na beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus

«A Santidade é a identidade do cristão»

1. Reunimo-nos hoje, aqui, para celebrarmos a proclamação da santidade de uma cristã, nascida e baptizada na nossa cidade de Lisboa, a Madre Maria Clara do Menino Jesus. Esta proclamação, feita com a autoridade apostólica de Sua Santidade Bento XVI, aqui representado por Sua Eminência o Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, lembra a todos os cristãos da Igreja de Lisboa, de modo particular às Irmãs da Congregação que fundou, que a santidade é a meta da vocação cristã; ela exprime a identidade profunda do cristão.

Esta proclamação garante-nos, com a autoridade apostólica da Igreja, que Madre Maria Clara, no termo da sua peregrinação terrena, ouviu de Cristo, a porta de todo o caminho de santidade, aquele convite que o próprio Jesus anunciou: “Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo” (Mt. 25,34).

2. A santidade é uma experiência humana que só Deus conhece. Na oração eucarística, a Igreja repete continuamente: “Vós, Senhor, sois verdadeiramente Santo, sois a fonte de toda a santidade”. Ser Santo é viver a vida numa progressiva identificação com Cristo que nos introduz no mistério do amor trinitário. Só mergulhando nesse mistério insondável do amor divino, se pode viver santamente a vida. Esse mergulhar no mistério de Deus, transforma toda a nossa vida. É por isso que Deus Pai, depois de nos unirmos ao seu Filho Jesus Cristo, no baptismo, nos comunica o dom do Espírito Santo. Receber o Espírito Santo é aceitar e desejar que a voragem do amor divino transforme toda a nossa vida. Se Cristo é a porta da santidade, o Espírito Santo é a força que a realiza. Ser Santo é deixar que toda a nossa vida seja obra do Espírito Santo.

A santidade de um cristão é uma realidade tão densa como o mistério de Deus. Só Deus conhece como ela se exprimiu em cada um. O que foi a vida de santidade desta cristã, só Deus o conhece. Como o amor de Deus a envolveu e se transformou em força para amar. Os momentos mais fortes viveu-os, certamente, no silêncio da sua adoração e é, também, no silêncio adorante, que acolhemos o dom desta vida santa, fecunda para toda a Igreja, porque no amor de um santo exprime-se a fecundidade de amor com que Deus continua a amar o mundo, no seu Filho Jesus Cristo.

3. Mas se a santidade de um cristão é um segredo que só Deus conhece, ela é sempre, na Igreja, um sinal do Reino de Deus, do Povo do Senhor, que Ele santifica com o seu amor. A santidade de cada cristão edifica a Igreja, contribui para que ela seja a “Santa Igreja de Deus”. A maneira como um santo vive é sempre uma interpelação à fidelidade e à santidade. Como Jesus disse aos discípulos, “pelos frutos se conhece a árvore”. Um Santo é, pela sua vida, um testemunho de que o Reino de Deus é possível. A santidade de um cristão chega até nós através do seu testemunho de vida, que nos abre para o mistério da santidade vivida no silêncio de Deus.

Não há dois santos iguais. Sendo uma resposta pessoal a um apelo contínuo do amor, envolve a história pessoal de cada um, os dons pessoais com que foi criado, a sua resposta aos apelos concretos das circunstâncias, do tempo e da história. Um Santo exprime sempre a actualidade do amor de Deus na história dos homens e nas circunstâncias concretas de cada tempo. Como diz São Paulo, são muitos e variados os dons, um só é o Espírito que os unifica a todos na construção do Reino de Deus.

Nesta variedade da santidade pessoal há coordenadas comuns que levam todos os caminhos humanos de fidelidade a cruzarem-se em Cristo, o primeiro Homem a viver plenamente a santidade de Deus. Todos os caminhos de santidade supõem sempre um seguimento de Cristo, a identificação com Ele, a imitação de Cristo. “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fil. 2,5), foi o desafio de Paulo aos Filipenses. E só na intimidade com Ele, que nos oferece em cada Eucaristia, podemos penetrar no insondável desses sentimentos. Ele que, sendo Deus, se humilhou à condição de servo, para fazer dos escravos, filhos.

A verdade da sua relação filial com o Pai inspira todos os seus sentimentos durante a sua missão humana. A sua fidelidade à missão exige que a sua vontade humana se conforme sempre à vontade do Pai; sem deixarem de ser duas vontades, exprimem-se como se fosse uma só. E essa vontade tem um objectivo, o de que todos os homens se salvem. A vida torna-se, inevitavelmente, um dom pelos outros.

Um outro sentimento de Jesus é a sua predilecção pelos pobres e aflitos, com os quais se identifica. O Santo é chamado a amar os pobres e aflitos como se fossem o próprio Cristo. Essa atitude, vitória sobre todos os egoísmos, triunfo da gratuidade do amor, guardada no silêncio de Deus, tornar-se-á explícita no juízo final: “Em verdade vos digo, o que fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt. 25, 45). O Santo torna-se, assim, no concreto da vida das pessoas, “o rosto da ternura e da misericórdia de Deus”.

4. Acabo de usar a expressão com que a actual Superiora Geral das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, definiu Madre Clara: ela fez sentir a ternura de Deus. Libânia do Carmo, que tomou em religião o nome de Clara do Menino Jesus, nasceu num tempo singular e sentiu os desafios de ser cristã e de ser Igreja, numa sociedade cultural e politicamente a afastar-se do ideal cristão. As crises sociais e as epidemias da peste indicaram-lhe os pobres como destinatários do seu amor. Mas não esqueçamos a sua ousadia missionária e a sua firmeza, mostrada perante todas as dificuldades com que se foi deparando. E as que encontrou no seio da sua própria família religiosa não foram, certamente, as mais fáceis. Mas não desistir é apanágio dos santos.

Fundou uma Congregação Religiosa. Na segunda metade do séc. XIX, em Portugal, foi ousadia notável. Não copiou nenhuma já existente, pois queria responder ao momento que então se vivia. Percebeu que a mulher que quer ser santa é chamada a ser uma explosão do amor de Deus, aquele amor que transforma o mundo.

Às Irmãs da Congregação que fundou, ela lança um desafio: sejam hoje o que a circunstância concreta do sofrimento humano exige de vós. E a todas as nossas jovens, que pertenceis à mesma Igreja de Madre Clara, ela lança um desafio: se quereis ser santas, deixai que a vossa vida seja uma explosão do amor de Deus. Respondei aos desafios do momento presente; transformai as formas antigas, inventai formas novas, se for preciso. Escutai a voz do amor, o que o mesmo é dizer, escutai Jesus Cristo, deixai-vos transformar pelo Espírito Santo e digamos com esperança: bem-aventurada Madre Clara, intercedei por nós.

D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa
Estádio do Restelo, 21 de Maio de 2011

 

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